Botafogo 2×0 Nacional (PAR): Inchaço no rosto e na alma.

Eram poucas horas depois da cirurgia mais delicada da minha vida e eu já pensava em como eu estaria para o dia 16. Afinal, por se tratar de um jogo supostamente comum e de público morno, talvez eu tivesse condições de me fazer presente em pouco mais de duas semanas de repouso.

Parece que eu tava um pouco enganado a respeito do cotexto que cercaria a data do confronto contra o Nacional. E não me refiro apenas à quantidade de gente naquela noite; mas em sua relação com a minha melhora. A princípio, eu esperava melhorar para estar lá. Mal eu sabia que, estar ali, me faria melhor. De saúde, de coração, de alma, como ser humano.

Seria prepotência da minha parte dizer que Deus desenhou toda essa partida de maneira inesperada só pra mim. Mas vou me permitir. Nenhum botafoguense merece não ser soberba depois de mostrar aquilo que somos para o continente mais uma vez. Dez dias antes do confronto, em recuperação pra lá de avançada, fui liberado pelo meu médico, que me aconselhou não gritar muito. Eu disse que seria mole, que o jogo era morno e de público moderado. Já sei que você tá rindo. Se liga no próximo parágrafo.

Terça, dois dias antes do confronto. Ingressos esgotados, mosaico confirmado. No fim de semana passada, eu ainda me queixava de dores e incômodos. Na véspera do jogo, avisei à minha família que ia “ali do lado”. Rumei pro nosso estádio e, na minha cabeça, eu ficaria “um pouquinho” pra “dar uma moral” na montagem. O resultado? Saí junto de todos os outros amigos que trabalharam duro naquela madrugada.

Se eu me esforcei? Que nada. A hora passou voando.

A cada papel enrolado, escadas que subíamos, resenha com os irmãos de camisa, contagens de cadeiras que faltavam, eu ia melhorando. As risadas que meus amigos mais idiotas como o Victor, o Lucas, o Pedrinho, a Vitória e o Marcos me faziam dar, o maxilar doía muito. Na medida em que eu sentia dor, era confortante para o coração vê-los novamente. Até mesmo a rapaziada figura que eu não conhecia. Eu me escaralhava de rir a cada vez que via um moleque, batizado de “Diguinho” pela semelhança com o ex-jogador do Bota, pingando suor de tantas cartolinas que trazia de cima para baixo.

Estar no lugar que eu amo, com aqueles que amo – por amizade ou pela semelhança de distintivo na camisa. A cada letra montada, o prazer de conseguir montar a mensagem daquilo que queríamos se tornava o antibiótico para a melhora de um comunicador ansioso para voltar à normalidade. Talvez nem meu médico soubesse que, ao dizer a frase “ir ao jogo vai ser bom para a sua cabeça”, soaria tão real.

No jogo, estava morta a saudade do que tenho sempre, com o toque a mais da casa cheia, incomum pela dificuldade que tem o torcedor neste país. Ali estava o Botafogo, o meu lugar, a minha gente, os meus irmãos. Junto de um cenário que ninguém esperaria há uma semana. Entramos, organizamos, fizemos acontecer. Levantamos as peças, dissemos aquilo que queríamos. Em uma 2ª fase, em um dia atípico. Mas o botafoguense gosta de ser diferente. E deixa claro aquilo que quer. Ninguém fez festa no início da Copa Sul-Americana. Só quem já teve o prazer de vencê-la no auge de sua dificuldade. Somente quem está faminto por ela de novo. Como em 93.

A classificação caiu nos colos do maior do confronto, com as graças de seu povo que, quando convocado, mostra, ao continente, o que é. E deixa locutores boquiabertos falando em castelhano. Esses, inteligentemente, ignoram a insensibilidade da mídia brasileira e reconhecem a importância que tem essa estrela para o cenário do esporte que amamos.

Por fim, melhora acelerada pelo combustível em êxtase de fazer, falar, sentir, ver, viver aquilo que me faz viver de verdade. Desgastado fisicamente, revigorado em alma a cada “boa recuperação” e abraços que recebia de pessoas que eu sequer conheço. Os olhares mais sinceros daqueles que, por algum motivo, me tratam como irmão ao me reconhecerem.

As duas noites de esforço talvez tenham me dado um inchaço a mais por certos dias. Na saída, do estádio, eu sorria levemente para que não doessem os pontos. As bochechas mais infladas. A alma, igualmente. É o preço a se pagar por tanta emoção improvável – como manda o roteiro de quem veste preto e branco no Rio de Janeiro.

Cada parágrafo comprova que o Botafogo levanta o botafoguense. E vice-versa. Da mesa de cirurgia ao estádio; do ano murcho ao êxtase repentino em busca da taça. Nos levantamos.

 

Daniel Braune

Esse texto é dedicado especialmente aos amigos: Pedro Ansuatigui, Gabriel Lopes, Marcos Rosa, Victor Alves, Daniel Nogueira, Kelly Bastos, Mariana Bessa, Samanta Lima, Pedro Chilingue, Lucas Lopes, Pedro Akra, Bibi, Vitorinha, Breno Campos, Ícaro Vinícius, Dinho e Isa, Fellipe Portella, Cadu, Café, Léo Ribeiro, Caio Fabio, Caio Voloch, Leo Pessoa, Pedro Mendes, entre outros amigos e irmãos de camisa que estiverem, de corpo e alga, me acompanhando nesses dois dos dias mais especiais da minha vida – e da minha saúde.

 

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