70 anos do Maraca: o tempo do preto e branco não se colore.

O Maracanã é o grande símbolo do Rio de Janeiro no nível da Terra. Nos céus, perde apenas para o Cristo Redentor. E para os Deuses do futebol que o criaram. Um lugar amado e admirado por qualquer carioca, mesmo que este não saiba. Ainda mais o botafoguense. Explico e parafraseio Beth Carvalho: o Botafogo é o símbolo do Rio de Janeiro. Cá entre nós: não tem como símbolo e cartão postal ficarem separados nessa. Por mais que seja uma pena o que fazem a ti em uma semana tão importante, é nosso dever registrar orgulho.

A história já traçava destinos cruzados no primeiro jogo: há exatos setenta anos, Didi inaugura as redes do Maracanã, pela seleção carioca. À época, jogava no Fluminense, é verdade. Sete anos depois, parou no Botafogo para nunca mais ser esquecido – nem do alvinegro, nem do Maracanã. Foi em cima do próprio Flu que Didi comandou o meio-campo da maior goleada do templo em uma final: 6 a 2. Botafogo campeão pela primeira vez no Maraca. A primeira consagração do alvinegro João Saldanha, que ainda faria muito por aquele lugar. Nos microfones, e à beira do campo; pelo Botafogo e pela amarelinha. Se não é que dava no mesmo…

Dizem que os ‘tempos em preto e branco’ remetem a épocas antigas. Eu diria que só pode ter a ver com o período em que o Botafogo dominou o Maracanã. Já dizia Salim Simão: o futebol só aceita o Botafogo.

O esquadrão de uma ponta à outra da década de Didi, Nillton Santos, Amarildo, Quarentinha – e Garrincha acabando com o rubro-negro em 63; Gerson, Jair, PC, Roberto e Rogério – e a tempestade de gols sobre o Vasco em 68.

Alguns anos depois foram bem complicados. Nos afastaram, até. Culpa de alguns que diziam cuidar do Botafogo. Dizem até hoje. Mesmo assim, ainda deu tempo de se orgulhar de Marinho e Jair a homenagear o rival: nós gostamos de voSEIS. Anos depois, a valsa de Mendonça. 

E todo botafoguense sabe: tempos difíceis constroem grandes histórias. Só o Maraca para marcar o começo de mais uma era, da forma mais desconexa antagônica possível: no lugar da seleção que conquistou o templo pela primeira vez, a camisa alvinegra vestia um time limitado, mas que reataria a relação com o Maraca para a década. A magia era notória quando um Botafogo mais limitado ainda conquista a América pouco antes do ano de alegria, em que um goiano te acostumou mal a estufar seu véu de noiva. Túlio conquistou o Brasil reafirmando que, no Maracanã, jogar contra o Botafogo era diferente. 

Algumas coisas fizeram com que nos afastássemos de novo. Ciclos da vida. Mesmo que a cavada de Loco Abreu tenha tirado do fundo da terra essa relação, hoje você tem uma nova cara, e nós um novo lar, do qual nos orgulhamos muito. Mas vale ressaltar: se batizamos com orgulho o nosso novo templo com o nome de Nilton Santos, um dos maiores ídolos do Botafogo e do próprio Maracanã, o batismo do Maracanã tem sangue alvinegro: Mário Filho. Foi do jornalista, filho de alvinegro, a ideia de colocar o Maraca no coração do Rio, e fazê-lo o coração do futebol.

Somos assim: fazendo o Maracanã de preto e branco desde sempre. Em sua localidade, construção, nas mais nostálgicas imagens. No maior público de Copa do Brasil, na maior goleada em final, no maior número de finais com goleada, na última decisão do que foi o adeus do verdadeiro Maraca… claro que tivemos nossos revezes. Afinal, quem não tem? Mas pergunte a quem viveu o Maracanã por sua essência sobre o Maracanã no tempo do preto e branco: ele não precisará fazer esforço para falar do Botafogo. Já dizíamos uma vez: somos um só.

Mesmo que queiram manchar tua história, onde sua presença deveria ser de força a quem tanto precisa no momento, e não palco da ganância, seguiremos enaltecendo o que é o verdadeiro Maracanã. Por isso que não vai dar pra colorir o tempo do preto e branco.

 

Daniel Braune

Deixe uma resposta

Fechar Menu