A Balança de Talentos

Quantas vezes não teríamos nos empolgado com um jogador de forma errônea se existisse um dispositivo que apontasse em uma escala numérica o talento do sujeito? Ou quantos não teriam nos surpreendido ao ganhar espaço com a lesão de um titular indiscutível? Será que a graça seria a mesma?

 

Durante o Paulistão de 2009, todo o país conhecia dois Meninos da Vila de talento imensurável: Neymar, de 17 anos, e Paulo Henrique, 19, que havia atuado durante 2008 mas viera se destacar com gols, assistências e muita qualidade no campeonato em que terminariam como destaques, mesmo perdendo a decisão para o Corinthians de nomes consagrados, sendo Ronaldo o principal deles. A dupla continuou se destacando no Campeonato Brasileiro e mesmo com o Santos ficando na zona intermediária da tabela, eram cotados como as revelações daquele ano – Fernandinho, campeão com o Grêmio em 2017, foi eleito (ah, uma balança nessas horas). Já em 2010, ano de Copa do Mundo na África, os desconhecidos meninos em 1 ano viravam apelo nacional para a convocação de Dunga, e junto com esse apelo, uma afirmação começava a ganhar corpo em todo país: “Ganso é melhor que o Neymar”. Afirmação essa que, muito provavelmente, nem a balança teria desmentido, afinal, o meia, mais maduro à época, mostrava mais talento que o atacante, também genial. Oito anos depois, olhando para toda história construída pela dupla, tiramos dela um claro exemplo de como o futebol é cheio de variáveis e muito imprevisível em seus aspectos.

 

Mas não imaginem que só os torcedores e amantes do futebol teriam menos trabalho caso houvesse o bendito equipamento, é impossível contar quantos milhões teriam sido economizados se antes de cada negociação existisse um exame que comprovasse a qualidade da matéria-prima que contratara. A maior prova de toda essa incerteza quanto à qualidade de cada jogador, principalmente os mais jovens, está na incoerência dos valores aos quais são negociados, cada vez maiores e cada vez mais cedo. 

 

Luan se aproxima de completar pelo Grêmio os mesmos 230 jogos que Neymar fizera pelo Santos, ambas as passagens coroadas com um título da Libertadores, troféu de craque da competição e Rei das Américas do mesmo ano. Não comparando a qualidade de ambos, que inclusive está protegida pela quantidade de gols de cada um – Luan tem 59 gols nos seus 218 jogos no Grêmio, enquanto Neymar fez 138 – mas a diferença de mercado entre eles é mais gritante do que essa disparidade numérica. Aos 18 anos, no seu segundo ano no profissional do Santos, Neymar já recebia propostas de altíssimo valor, a maior delas do Chelsea, e apenas ficou por mais tempo no país porque sabia que suas oportunidades não acabariam ali, muito pelo contrário. Já Luan, iniciando seu quarto ano de profissional, e destaque, no Grêmio, tem em seu histórico algumas sondagens da Europa, e de concreto, apenas propostas de mercados emergentes, como o da China. Talvez a forma tardia como Luan apareceu no cenário nacional – apesar de nascidos no mesmo ano, Luan foi lançado ao profissional aos 20 anos em 2014, ano em que Neymar já atuava no Barcelona e vestia a camisa 10 da Seleção -, ou talvez a dificuldade (inexplicável ao meu ver) de se firmar como um selecionável constante possam explicar essa dificuldade de negócios para o 7 gremista, mas fato é que o mercado se mostra diferente a cada jogador, mesmo que existam casos semelhantes dentro de campo.

 

Exemplo ainda mais próximo de Luan para isso é Arthur, volante que aos 21 anos, e após um ano fantástico no mesmo elenco do atacante, se aproxima de uma negociação de preço recorde no mercado gaúcho – 30 milhões de euros garantidos, com possibilidade de atingir os 40 se Arthur alcançar todos os objetivos previstos no contrato – e muito significativa se comparada à de outros nomes muito badalados no mercado, como Gabriel Jesus e Vinicius Júnior. E me pergunto os motivos nesse caso. Talvez as características únicas de Arthur, capazes de mover um time por completo, e cada vez mais raras no futebol mundial, ou a forma meteórica com que seu futebol foi reconhecido, parando na tão sonhada convocação de Tite tão rapidamente, mas fato é que mais uma vez o mercado não cumpre exatamente o que se espera dele e surpreende a todos que tentam acompanhá-lo.

 

Ao falar de um valor de venda no futebol brasileiro atualmente, é muito comum citarmos os nomes de Gabriel Jesus e Vinícius Júnior, casos distintos mas que são exemplos de como o mercado também se curva aos talentos, principalmente os nossos, quando se tem a oportunidade de assegurá-los. Gabriel já se destacava nas categorias de base do Palmeiras quando em 2015, foi chamado ao time profissional, teve uma ascensão meteórica, com gols em grandes jogos na campanha da Copa do Brasil e já despertava a certeza de que se tratava de um talento diferente. Veio 2016, o Palmeiras apesar da queda precoce na Libertadores, manteve um ano de altíssimo rendimento e lá estava Jesus brilhando, chamando atenção de diversos clubes europeus, inclusive o de ninguém menos que Pep Guardiola, que se viu obrigado a ligar pessoalmente para o menino e convencê-lo a trabalhar com ele em Manchester, fazendo com que Gabriel atuasse o restante da campanha do título brasileiro já vendido ao City. 

 

Enquanto isso na Gávea, um menino irreverente, com seu futebol ofensivo e de extrema qualidade, seguia jogando como um profissional em meio aos jogadores de base, tanto no clube quanto na seleção Em 2017, aos 16 anos, foi o comandante rubro-negro na Copa SP – torneio que tradicionalmente dá visibilidade aos jovens – e logo em seguida, brilhou pela seleção como o craque do sul-americano sub-17. Toda a imprensa, torcedores e pessoas envolvidas no mundo do futebol começavam a tratar de um caso diferente, alguns com a alcunha pesada mas costumeira de “novo Neymar” e antes mesmo de estrear pelo profissional, Vinícius estava vendido por 45 milhões de euros ao Real Madrid, valor maior que o de todos citados acima, exceção do camisa 10 do PSG. Ora, nesse texto falamos de jogadores campeões brasileiros e até campeões continentais, como pode esse rapaz valer tanto? Pois é, mais uma peça que o mercado nos prega, e que até o momento – VJR tem 8 gols em 42 jogos, a maioria vindo do banco – não sabemos se precisávamos da balança ou não – eu acredito que não.

 

Após todas essas provas de que o mercado não segue um único critério e jamais fará sentido se analisarmos de forma unilateral, vamos falar de um caso que pra mim é fundamental: Lucas Paquetá. O meia do Flamengo tem até agora, se não o melhor, um dos melhores inícios de ano no país, jogador que reúne uma capacidade física impressionante tanto no momento ofensivo quanto para a recomposição, somados a muita habilidade e vontade dentro de campo. Perfil esse que chama atenção de qualquer clube europeu, e a torcida rubro-negra sabe disso, mesmo sem nada concreto, já começam os movimentos para que o camisa 11 não seja negociado, afinal, Paquetá é hoje uma das esperanças de um Flamengo que seja competitivo e tenha a tão sonhada “cara de Flamengo” nos últimos anos.

 

Em um mundo onde cada vez mais o cartão de visita dos jogadores e elencos são os números, deveríamos estar valorizando as peculiaridades que só o futebol nos proporciona, dentro de campo, nas arquibancadas, nas nossas casas, ou onde quer que encontremos essas emoções,  porque elas podem durar cada vez menos aqui próximas a nós.

 

Abraços,

Rodrigo Delgado

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