Anderson Barros: vamos falar de falta de respeito?

Anderson Barros,

até compreendo sua tentativa de proteger seus atletas e a comissão técnica. Mesmo que não tenha acontecido nenhum ato violento no episódio do treino, considero normal o posicionamento por ter se tratado de uma invasão. Mas ao ouvir os termos que o senhor usou em seu comunicado à imprensa, me permiti escrever. Gostaria de dizer que sou um grande entendedor de expressões como “inadmissível” e “falta de respeito”. Talvez você necessite saber disso para mostrar a quem está à frente do clube e enxergar o que o torcedor passa.

Sou um botafoguense de 23 anos, sócio-torcedor desde que mudei para a capital do Rio de Janeiro, em 2015, e me fiz jornalista e engajado em futebol graças ao Botafogo. À sua história. História de respeito mundial.

Respeito que se perdeu há um bom tempo. E isso não tem a ver apenas com situação financeira, administração, ou só com os alucinados da alta cúpula que fazem de tudo para afundar o Botafogo ano após ano – que talvez irritem até a você mesmo. Já dizia uma das minhas maiores inspirações: respeito é pra quem tem. E não ter respeito é, de fato, inadmissível.

Falta de respeito é a expressão que nós botafoguenses mais conhecemos. E não, nós não somos os autores: somos as vítimas. Falta de respeito, por exemplo, é o que recebi no direct do meu Instagram há algumas semanas: uma moça de longe que visitava o Rio e não pôde conhecer a histórica sala de troféus de General Severiano porque não havia absolutamente ninguém com paciência para guiá-la. 

Inadmissível é o torcedor do Botafogo tentar realizar um check-in de uma partida e os ingressos esgotarem em minutos em 2017; para dois anos depois, vermos que parte dos ingressos possam ter sido desviados por diretores que compunham cargos da Vice-presidência do clube. Tão inadmissível que o Ministério Público condenou.

Falta de respeito, Anderson Barros, é eu me fazer presente em absolutamente TODOS os jogos da Taça Guanabara de 2019, pagando ingresso e transporte; para então abrir o Twitter e ver esse mesmo antigo VP de Comunicação entonar e vomitar que a culpa da lanterna em um grupo com Cabofriense, Resende e Bangu era da torcida que não vai. Ou seja: minha.

Inadmissível, Anderson Barros, é não identificarmos um pingo de meritocracia na montagem do elenco feita pelo senhor no planejamento para 2019. Mesmo que não seja uma sumidade, é difícil que você, com anos de experiência em gestão esportiva, ache coerente se livrar de Ezequiel e escolher Zé Gatinha, misterioso jogador oriundo da 4ª divisão paulista, para integrar o ataque no grupo do início do ano. Que você ache normal ceder Leandrinho ao Sport e ficar só com Marcos Vinícius à disposição, devolvido em dois meses pela Chapecoense. Sempre aprovar a repatriação de nomes como Vinícius Tanque e Pachu, misteriosamente. Assim como também é um mistério o fato de boa parte dos jogadores sondados ou contratados já ter trabalhado com você em algum outro clube.

Para não dizer que o cúmulo da falta de respeito é, realmente, ter Kieza e Cícero custando quase o dobro do que custam Marco Ruben e Bruno Guimarães ao Athletico, campeão da Copa do Brasil. E os paranaenses gastam só 100 mil a mais em folha que o Botafogo, tá? Isso só falando de presente.

Porque se eu te contar de tudo que acontece nesse clube desde 1999… tudo que eu passo… tudo que já acontece desde muito antes de a sua primeira passagem pelo Botafogo em 2009… são dois rebaixamentos; o único time do eixo sem um título de expressão ou sequer uma presença em alguma final no século; a bola batendo na trave sempre porque faltou o mínimo de decência por parte de vocês em algum momento de descuido. Fora as décadas aguentando “falta de dinheiro” como desculpa e nenhuma gestão para solucionar isso. Além de dirigentes se encostando em um clube destroçado para satisfazer a seus interesses próprios ou os de terceiros… enfim.

Eu diria, portanto, Anderson Barros, que sou graduado, com mestrado e doutorado no que significa, de fato, o termo falta de respeito. E pode ter certeza: as decisões obscuras e inadmissíveis que você toma por motivos desconhecidos colaboraram muito para isso. Somos amplos conhecedores desses termos. Você, eu e o restante inteiro da torcida do Botafogo. A diferença é que o primeiro é o autor. Não que seja o único. Mas só nós somos as vítimas.

E por mais que você possa ter um mínimo pingo de razão ao pleitear que o local de treino dos seus atletas não deva ser invadido, tenha, também, alguma decência para entender que somos especialistas em sofrer essa tal falta de respeito. E o que no Botafogo foi apenas uma cobrança firme com o mínimo de diálogo, em outros clubes seria algo muito pior. Exemplos não faltam em outros times.

Respeite para ser respeitado. Faça minimamente o admissível para que tenha, talvez, o direito de gritar aos microfones que a indignação dos torcedores do Botafogo é algo que você não admite. Sim, eu sei muito mais do que você imagina das dificuldades que você deve passar para gerir todo esse caos aí dentro. Mas revisando algumas coisas sobre as quais até você é o responsável, talvez o senhor possa confirmar: só a gente tem credencial pra falar em falta de respeito no Botafogo.

Bom trabalho e boa sorte até a reta final do campeonato brasileiro. O sucesso das suas ações também é o nosso sucesso. E lembre-se sempre do quanto entendemos de falta de respeito e coisas inadmissíveis. Pelo respeito que a história desse clube carrega, e pela falta dela que tanto impera hoje. Há algumas décadas, inclusive.

Att,

Daniel Braune

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