Botafogo 1×1 Audax Italiano – O velório

Apesar de ruim e um tanto vergonhoso pelo contexto, o empate contra o Audax nos assegurou a vaga à segunda fase da Copa Sul-Americana. Mas o dia nove de maio acabou se tornando tão melancólico quanto se tivéssemos visto uma eliminação do Botafogo.

Um dia antes, estávamos nós: eu, Portella, Samanta, Isa, Dinho, Kelly, Mariana, Jorginho e Gustavo no Estádio Nilton Santos, em frente às estátuas no setor oeste. Alguns serrotes, tesouras, TNT e todo o empenho e amor de quem gasta o pouco tempo de descanso para fazer uma festa pelo clube que a gente ama. Isso sem a menor certeza de que poderíamos exercê-la de fato no dia seguinte. Tudo porque amamos o clube que vivemos. É o único intuito da Iniciativa Botafogo, criada pelo Léo e pelo Portella, os dois caras mais botafoguenses que já vi.

Vou explicar: pelo regulamento, a CONMEBOL proíbe, burocraticamente, qualquer tipo de material ou artefato de torcidas dentro dos estádios. Não sabia? Faz sentido. Afinal, como os artefatos são proibidos em competições continentais se a marca da Libertadores e da Sul-Americana é, justamente, a grande festa nas arquibancadas? Como materiais de torcida não podem entrar se há anos vemos bandeiras, faixas, barras e instrumentos de percussão nos estádios da América do Sul? Justamente por ser pura formalidade. Ninguém segue. É como o “proibido falar palavrão” na pelada. 

No entanto, para essas normas burocráticas fiquem embaixo dos tapetes, cabe ao clube se posicionar e informar ao Grupamento Especial de Policiamento em Estádios que “banca” as torcidas e autoriza a entrada dos artefatos. Feito isso, as torcidas fazem a festa, o clube se beneficia com um belo visual em seu estádio, a CONMEBOL e as TVs desfrutam de belas imagens e a polícia se despreocupa, pois não há nada de errado nisso. Todo mundo sai feliz. Como na imagem abaixo, na mesma noite do dia 9 de maio, no jogo do São Paulo.

Na manhã do dia do jogo, recebemos a bela notícia por parte de integrantes da diretoria do clube: materiais liberados, a festa aconteceria. As tiras de TNT em preto e branco cobririam a arquibancada leste inferior, e as bandeiras e instrumentos das organizadas estariam posicionados normalmente, como em todos os jogos. Era o mínimo, afinal, clube e torcida devem ser aliados. Sempre. Sem porém. Se até um jogador do clube se prontificou a colaborar com a festa comprando balões, o correto seria o Botafogo esquematizar tudo há uma semana. Fez faltando horas pra isso. “Fez”.

Às seis da tarde, eu chegava no estádio. Chegou a mensagem: “Major vetou tudo”. A justificativa era o regulamento da CONMEBOL. Houve falha de comunicação entre o clube e as autoridades. Muito pelo clube ter tentado – ou não – resolver em cima da hora. Entramos só nós. Com as roupas do corpo e só – quase nem isso. Policiais barravam cachecóis e até bandeirinhas das mãos de crianças.

Graças à forma indiferente que o Botafogo tratou seu maior patrimônio, a partida se tornou um velório. Nossas vozes, geralmente ecoantes e muito barulhentas, carregavam nosso rancor e mágoa vindos lá do fundo do coração. O clima ficou mórbido. Não à toa – e não mesmo – o Botafogo foi pavoroso em campo. Desatento, aéreo, sem quem o empurrasse devidamente do lado de fora. Mas parece que a diretoria do clube não dá a mínima. Não entende a importância de quem te apoia do lado de fora, em nenhum aspecto. Seja no apoio, seja na estratégia de marketing e publicidade. Veículos de televisão internacionais transmitiam a partida, que não teve atrativo algum nas arquibancadas. 

O que aconteceu nessa noite é o sinônimo de várzea. Um clima horroroso dentro das arquibancadas passava, nitidamente, para os jogadores em campo. Um dia trágico, para ser esquecido. Eu diria que foi semelhante a uma humilhação. Me arrisco a dizer que a dor foi pior. Uma eliminação demonstra um time que lutou para alcançar um objetivo e não conseguiu. Há um percentual de representatividade, mesmo que mínimo. 

Ter as grades fechadas na nossa cara com frieza e desprezo, com todo o material e os preparativos que fizemos com tanto carinho, doeu na alma. Nosso dinheiro, tempo gasto, energia, desgaste, tudo ia pelo ralo das ruas do entorno do estádio. Foi como chegar na casa da mulher que você ama com flores, todo arrumado, cheio de bons sentimentos no peito, seus olhos brilhando. Ela abre, ri e bate a porta. A morbidez tomou conta de nós. Tudo que havíamos feito com muito afeto, desabava.

Nosso amor, por incrível que pareça, não. Esse ninguém cala. Foi o que nos moveu até os portões e nos fez entrar só com o que tínhamos no corpo. Era o que, mesmo acompanhado de muita mágoa, saía de nossas gargantas nas arquibancadas da leste inferior. 

Depois de ontem, escrevo aqui com os olhos cheios d’água. O doutor me passou o diagnóstico. O futebol vai morrer. A cultura dele vai se disseminar. E sem cultura, não há futebol. Pode existir evento, mas futebol não. Ele não existe sem naturalidade e pureza. E ele está adoecendo. Especialmente no estado que deveria levar consigo o mais charmoso futebol do planeta. Nos resta aproveitá-lo até que ele se canse e parta. Já estão o matando propositalmente, injetando veneno com força nas suas veias. Diretorias, autoridades, polícia, sociedade. Ontem, o veneno foi o pior e mais cruel de todos: a indiferença. Ela que nos matou ontem. Só faltou que enterrassem-nos ontem após a partida.

O Botafogo, ontem, deixou de amar a sua torcida. E terá que ralar muito se quiser, um dia, levantemos do caixão.

 

Abaixo, mais alguns exemplos de festas autorizadas a serem feitas com o auxílio dos clubes, em comparação com o que ocorreu ontem:

 

Daniel Braune

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