Botafogo 3×2 Vasco – retorna o IMENSO prazer

Há uma diferença enorme entre o trabalho e o emprego. No emprego, o cara bate o ponto, atende o telefone, olha pro relógio, arruma as coisas de uma vez faltando alguns minutinhos para o fim do expediente. O trabalho, em seu significado, já remete a vontade. De produzir, de progredir, de criar, de se desgastar até que seu produto final apareça. Se o ambiente no Botafogo era mórbido, nada como uma noite preta e branca para colorir – de alvinegro – o nosso ambiente de novo. 

O que não vale nada, ontem, no fim das contas, valeu de muito para o hoje e o amanhã. Se no fundo ressalto sempre a importância da evolução do desempenho em prol do progresso, hoje o importante foi o fato – e esse foi a vitória. No fim, con estratégia, malícia, perseverança. Foco e objetivo TOTAL que fizeram de uma partida mísera de uma semifinal de uma taça rio do estadual mais falido do Brasil, o jogo de suas vidas. Do treinador que ontem foi gestor, gandula, jogador dividindo bola e torcedor que quase se jogou na fossa. Valeu a ida a uma final que de final não tem nada. Mas o paradoxo mais gostoso é saber que, numa vitória repleta de erros e coisas a serem corrigidas, o ponto final dessa história de superação está longe de ser digitado.

A alma foi lavada. Precisávamos desse banho, por completo. E um tal de João Paulo, mais uma vez, foi decisivo para isso. Da sua casa, ao lado da família, deve ter se segurado pra não sair capengando ao comemorar o terceiro gol. No fundo, ele estava aí no meio desse bolo da foto em destaque. Como se todos o abraçassem. Onipresente, na alma de seus companheiros, em seu comando por atmosfera, na touca de Igor Rabello que deu ao fogão a vaga. Coincidências não faltam.

Resgatamos nossa confiança, nosso orgulho e nosso tão imenso prazer em ser o BOTAFOGO ontem. As decepções são muitas, o paradigma é ruim, caminhos são empoçados; mas sempre há uma estrela que brilhe na hora certa, onde tudo se encaixa. Noites como a de ontem me fazem crer que o destino constrói essas tramas propositalmente – ainda mais para quem veste preto e branco. Ser Botafogo é gostoso pela novela romântica que envolve amá-lo. Realista, fria, cruel, mas com indícios celestiais de que, um dia, a felicidade eterna vem. 

Minha alma tá lavada. Que venham mais banhos. Quem joga talvez não entenda a dimensão do que é isso para nós. Acorda-se de bom humor. Dando bom dia na rua, sorrindo para quem não se conhece, abraçando a quem se ama ao levantar da cama. O esforço dentro das quatro linhas por parte de vocês nos faz sentir mais prazer em viver nos quatro cantos da cidade, por voluntariedade que nós nunca saberemos. Só entendam. E continuem fazendo.

Sim, o carioca não vale nada. A taça Rio não vale nada. E foi só a ida à final de algo tão insignificante nos tempos atuais. No entanto, se a nossa felicidade é tema desse texto, não há como não escrevê-lo. É esse sentimento – que ninguém entende – que nos mantém aqui. Precisávamos dessa lenha no fogo que consiste no nosso peito.

Domingo tem mais. É bom ver um Botafogo respirando Botafogo. Em campo, no vestiário, nas redes, na bancada – especialmente a última. Tímida em quantidade graças ao desânimo e desgaste, mas inflada e extravagante em relação aos que insistem em crer em um fim feliz. A gente não para, simplesmente nunca. Na voz, na atitude, na fé, no amor. Talvez seja graças a quem sofre tanto que alguém, lá de cima, permaneça olhando para cá. E a gente sabe disso.

Abs,

Daniel Braune

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