Brasil 2×0 Costa Rica – só o equilíbrio emocional nos levará à perfeição

A Copa da Rússia tem demonstrado que o futebol se consiste cada vez mais no ataque x defesa entre equipes fortes e fracas. Irã, Islândia, México, Suíça e, agora, Costa Rica. Algumas das defesas tecnicamente frágeis que, com barreiras coletivas, deram dor de cabeça aos gigantes mundiais.

De todas as campeões do mundo que obtiveram dificuldades para vencer partidas no mundial até aqui, apenas uma executou um verdadeiro bombardeio: a nossa. O que se torna um aspecto positivo num futebol em que apenas um joga hoje. Resultados magros mostram que nem a alta qualificação técnica tem sido suficiente para penetrar as linhas de 5, ou até de 6, de adversários mais modestos. Aí entram aspectos como paciência, foco e equilíbrio emocional.

Talvez tenham sido esses os grandes obstáculos para a permanência do placar zerado no primeiro tempo. A falta de precisão nas dezenas de conclusões fracas dos mais qualificados finalizadores do planeta que temos em nossa equipe, foram o reflexo de um uma seleção mais dessorada que o normal. O que não é um mal apenas desse escrete, mas de tantos outros do Brasil – ou do brasileiro em geral.

Outros comportamentos também foram nítidos. Expressões de desespero a cada gol perdido. Com tranquilidade. Passes errados por conta da pressa, chiliques que resultaram em advertências – e principalmente o pênalti, que poderia ter sido marcado não fosse a atuação teatral de Neymar, condenada na revisão do árbitro, independente da veracidade.

E após o gol decisivo de Coutinho, veio o alívio. E o choro de Neymar também demonstrou a fragilidade emocional do protagonista da camisa mais pesada do planeta. É claro que é justo. Só ele sabe o que passou em sua recuperação e trajeto – como ele próprio disse, até desnecessariamente, em uma alfinetada nas redes sociais a quem o critica. Há todo um contexto de tensão e gol no fim. Mas foi em uma primeira fase. Contra a Costa Rica. Só. Neymar é capaz de muito mais. Não é contexto para destempero. Nem hora para provocações.

Se corrigirmos a nossa própria mentalidade, nos tornamos praticamente imbatíveis. O placar que hoje somou dois, poderia ter somado muito mais, fosse a nossa tranquilidade. Momentos dramáticos serão cada vez mais frequentes em partidas importantes da seleção. Desde os tempos de Barbosa em 50, de Ronaldo Fenômeno em 98, do destempero no segundo tempo contra a Holanda em 2010.

Discordo que critiquemos o Brasil pelo placar magro ou pelos gols no fim. São consequências do modelo do futebol atual. Mas devemos voltar a atenção para alguns dos motivos que, talvez, tenham adiado nosso sofrimento e nossa vitória. Afinal, todas venceram por pouco, mas só nós bombardeamos e dominamos a partida de maneira incontestável. É uma prova da nossa qualidade desde o início do século XX; do ajuste tático desde 2016. Só falta o equilíbrio emocional, para notarmos que não precisamos de mais nada além dele.

 

A ANÁLISE:

Como se esperava, o ataque x defesa se constituiu ao longo da partida. O Brasil demorou até a metade da primeira etapa, mas a partir dali, pressionou de forma intensa a Costa Rica até o apito final.

O Brasil poderia ter aberto vantagem nas primeiras oportunidades, mas foi inefetivo nas conclusões por nervosismo e afobamento, como Coutinho e Neymar em algumas oportunidades. Na armação e nas definições no último terço, alguns jogadores deixaram a desejar, como William, que foi burocrático.

A saída do camisa 19 para a entrada de Douglas Costa foi FUNDAMENTAL. Contra uma barreira humana, a explosão física e a agressividade no 1×1 do raio negro fizeram a defesa costarriquenha se desgastar ainda mais, e geraram oportunidades.

A ousadia de Tite ao pôr Firmino no lugar de Paulinho para flutuar, além de ousada, foi certeira. Mais um motivo para o desgaste dos defensores adversários e de oportunidades criadas.

O Brasil seguia perdendo gols, e se destemperando emocionalmente com o passar do tempo. Neymar apanhava, mas exagerava nas quedas. O árbitro atento a isso, não tolerou nenhum tipo de drama – nem dentro da área. Talvez tenha sido pênalti por interferência no movimento corpóreo, mas o enfeite de Neymar ao cair não o ludibriou.

A instantes do fim, o gol merecido, por todo o bombardeio brasileiro, e pelo anti-jogo da Costa Rica. Com o resultado na mão e a tranquilidade nos ares, veio o baile com dribles e mais um gol. Esse de Neymar, que vinha mal na partida, errando passes e perdendo um gol feito, pelo seu próprio nervosismo.

Se todas as potências passam sufoco até aqui, o nosso talvez tenha sido o melhor deles. Não só pelo bombardeio durante todo o jogo, mas por não termos implementado um placar elástico por deméritos próprios.

Notas:

Alisson – 6: foi bem com os pés e seguro nas saídas do gol quando exigido.

Fagner – 7: mesmo que sem a confiança do torcedor por simplesmente “jogar no Brasil”, foi muito superior a Danilo em todos os aspectos. Defensivamente seguro, ofensivamente mais ousado e entrosado quanto à metodologia de Tite. É titular.

Thiago Silva – 7: seguro é preciso nos desarmes, tanto por baixo quanto pelo alto.

Miranda – 8: com atuação parecida com a de Thiago, foi ainda mais preciso nos desarmes.

Marcelo – 6,5: como sempre, a válvula de escape do Brasil pela esquerda, cortando por dentro nas movimentações. No entanto, deixou a desejar em dois lances de perigo da Costa Rica pelo seu lado.

Casemiro – 6: seguro na contenção, poderia ter sido mais caprichoso na proposição e nas finalizações.

Paulinho – 5: precisa mostrar que também sabe jogar Copa do Mundo. Discreto, apareceu no ataque apenas duas vezes com eficiência. Preenchendo espaços, foi bem.

Coutinho – 9: não fossem algumas conclusões a gol mal feitas por falta de capricho, teria sido perfeito em campo. Autor do gol salvador e articulador de diversas oportunidades perigosas. Até então, é nosso verdadeiro protagonista.

William – 5: nervoso e burocrático, foi inefetivo pela esquerda.

Gabriel Jesus – 6: se movimentou mais que na primeira partida, é quase marcou de cabeça. No entanto, segue nervoso como boa parte do time.

Neymar – 6,5: autor do segundo gol, foi seu maior adversário em campo. Seu nervosismo o fez perder gols, errar domínios e passes que jamais erraria com tranquilidade. Seu destempero também o custou um amarelo e um pênalti não marcado, por exagerar na queda. Se mantendo tranquilo, pode ser o craque da Copa.

Firmino – 7: tranquilo e concentrado, deu volume à proposição com a qualidade que tem. Já não me impressionaria se aparecesse como titular na próxima partida no ataque.

Douglas Costa – 8,5: incendiou o jogo com explosão física, personalidade e concentração. Sua agilidade e movimentação mostraram ao Brasil que é muito mais que um reserva de luxo nessa equipe. Briga por titularidade.

Fernandinho – sem nota: entrou para preencher o espaço após o primeiro gol.

Daniel Braune

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