Brasil sub-17: a melhor derrota possível 

Se tem algo que me irrita e julgo como o principal culpado pelos altos e baixos do futebol brasileiro nos últimos anos, é o resultadismo.

Nele, não há legado. Não tem filosofia, racionalidade. É uma mera propaganda enganosa, que vai se apoiar eternamente no discurso do “ganhamos”. É a velha história do hambúrguer do McDonald, que na hora vai ser bom pra cacete, mas depois…

Foi o que vi no último mundial sub-20 que o Brasil venceu. Foi o que vi até mesmo nas Copas de 94 e 2002. Receitas à base do abafa, das soluções individuais, de números. Tudo delicioso a curto prazo; raso a logo – ou a fundo do poço.

É confortante desligar a TV após a derrota do Brasil no mundial sub-17 e ver totalmente o oposto. Encontro planejamento, filosofia, métodos, e um futebol de arregalar os olhos, provocar os sorrisos e engrandecer a alma. 

Não é exagero. A facilidade com a qual esses garotos ameaçam e amedrontam o time adversário com a bola nos pés é surreal. Suas soluções individuais? Ao invés de tomadas oscilo apoio, são auxiliadas pelo coletivo.

O modelo anti-resultadista me agrada muito mais que uma suposta consagração em um torneio de base que sequer será lembrado em dois meses. 

A grande vitória é vermos um grupo de onze garotos, aos quais apenas DOIS jogaram juntos na categoria sub-15, jogando mais bola que uma base alemã que caminha intacta desde as categorias mirins. 

Brasil vencia a Alemanha no mundial sub-20 em 2009. Cinco anos depois…

 

Eu não queria a derrota. Uma afirmação da nossa base com uma conquista concreta seria um marco. No entanto, se isso é consequência de uma semente que está sendo plantada, abraço essa “derrota” com prazer. É o pensamento europeu que tanto se vangloria. Perde-se hoje para vencer amanhã. O cultivo da horta a longo prazo produz muito mais.
Tem muita coisa boa vindo aí. Aguardemos 2022. São Ronaldos, Adrianos, Kakás, Neymares e outros fartos plurais sendo criados – e jogando juntos. 

Estaremos fartos. Não de resultados, mas de resultados que estarão por vir. E, pela primeira vez, isso está sendo planejado. Era o que nos falta para destoarmos, de vez, do restante do mundo no futebol, tal como os norte-americanos no basquete, os chineses no tênis de mesa, os jamaicanos no atletismo. 

Pela primeira vez, o legado não soará como algo negativo por aqui. Esse é o nosso título. Sei que é difícil entender isso. Não estamos acostumados a vencer dessa forma. Logo verá que é gratificante.

 

Daniel Braune 

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