Cada vez mais eu entendo os antipáticos

Uma das minhas maiores dúvidas quando criança era quando notava uma pessoa mal humorada. Aquela tia da sua escola que não abre um sorriso, o cara que trabalha no mercado que só te dá bom dia se você falar algo, o atendente de um banco que torce o nariz a cada dúvida que você tem. 

Eu sempre perguntava pro meu pai, que é um doscaras mais bem humorados e cordiais que o mundo já conheceu. Ele é um caso a parte. Criado por ele, sempre muito carinhoso e cortês, eu não compreendia quem não se comportava igual. Eu tinha aversão à antipatia gratuita. 

Acontece é que o mal humorado que você já olha torto quando aparece no mesmo ambiente que você, pode ser muito parecido contigo. Ele só é bem mais emotivo e sensível – sim, bem mais. Ele provavelmente não nasceu desse jeito. Muita coisa o transformou nessa coisa murcha que ele aparenta ser por fora. Por dentro, há rancor, mágoas e esperanças quase que falidas, revertidas em desânimo.

Hoje, vejo que o cara ranzinza na cancela de uma guarita sou eu, é você. Cheio de inocência e bondade no coração, há alguns anos atrás. O que dá bom dia e não obtém resposta nos lugares; o que se prontifica a ajudar o amigo e é apunhalado pelas costas na primeira oportunidade; o bondoso que sofre deboche de quem se diz mais esperto; o que chega no primeiro trabalho acreditando que todos ali formam um “time”, mas é ofuscado pelo complô e a competitividade barata e desonesta; o que cresce cheio de amor para dar a quem ama, e é tratado com indiferença e desprezo.

A vida e suas desilusões aguçam a antipatia nos mais puros e esperançosos. Ela vai te transformando. Pois para os maldosos, seu sorriso não é sinônimo de alegria, mas sim de inocência. Sua bondade não é cavalheirismo; é oportunismo. Sua tentativa de interagir não é simpatia; é interesse em algo que você deseja.

O seu professor que todos sentem pavor muito provavelmente já foi enganado por quem amava. O atendente da lanchonete te encara, com ódio da sua simpatia, por achar que tu és mais um maldoso a tentar maltratá-lo.

A sociedade é uma fábrica de antipáticos. Nos lapidam da maneira mais minuciosa, a cada dia, a cada ano de vida, a cada história repleta de melancolia. O ser humano tem o dom de transformar a inocência dos mais bondosos em rancor, externado em mal humor.

A cada dia eu os entendo mais. E respeito-os quando os noto no meu cotidiano. Busco ser até mais compreensivo que o normal. Dessa forma dá para notar até uns lampejos do que ele já foi um dia, antes de ser revirado do avesso por tanta maldade.

Não sou um deles, mas vejo caminhos que podem me direcionar a essa transformação. Crueldade, indiferença, egoísmo, má fé. Em um mundo regado a isso tudo, estamos todos sujeitos a nos tornarmos antipáticos.

 

Daniel Braune

Este post tem um comentário

  1. Entender e respeitar, pra mim, andando lado a lado. Mas que nada e ninguém mude a nossa verdadeira essência.
    Belas palavras, como sempre!

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