Cem anos de Sem medo – que falta faz João Saldanha

Se você sente que falta “alguma coisa” no futebol, tanto nos meios de comunicação quanto naqueles que o gerem, ouça o que tenho a dizer. Talvez eu tenha a resposta.

Se vê muita falta de informação precisa. Muita coisa posta por debaixo dos tapetes que fica por isso mesmo. Muito oba oba e palhaçada ganhando o tempo de coisas sérias por conta de “followers” – não mais seguidores ou espectadores, como manda o gringuismo atual.

Falta empenho, dedicação, amor ao que se faz. Falta coragem. Talvez, hoje, sobre medo por conta de uma época onde o “Sem Medo” reinava.

Não era uma metáfora poética e romântica para enfatizar um homem: João Saldanha realmente não tinha medo. Não demonstrava temor em nenhuma função que exerceu neste planeta.

 

O comentarista não tinha medo de berrar nos microfones da Rádio Globo para que os clubes dessem beiço no INSS; 

o jornalista não tinha medo de contestar, ao vivo, o que estava errado  e levantar o tom de voz aos que interferiam o destino nos bastidores; 

O ativista político? Não tinha medo nem dos mais quentes ferros da mais sanguinária ditadura já vista no continente. Não à toa, o esquerdista assumido fora chamado para treinar a seleção dos militares de extrema direita, que precisaram da mão de um comunista para salvar a imagem do país.

E o treinador? Não teve medo de assumir a seleção. Não tinha medo de levar gols e fazia questão de priorizar a arte entre as quatro linhas brancas. Foi essa falta de medo que nos deu o Tri em 70. 

Também não tinha medo de barrar Pelé por indisciplina, convocar Dadá ao invés de Dirceu e ainda debochar da cara do presidente Médici ao vivo: “eu não monto ministério, assim como presidente não monta seleção”. Demitido, permaneceu intocável. Os mais temidos temiam o Sem Medo.

Saldanha não tinha medo dos tiros que levou. Um deles o arremessou lá na China, onde expôs aos berros o nome do Botafogo, que caiu nas graças do mandarim. 

 Também não tinha medo de atirar. Sem querer acertar – e nem errar – fez o gigante goleiro Manga entrelaçar o rabo entre as pernas e pular a mureta do vestiário do Maracanã, sob suspeita de entregar um gol por dinheiro.

Não tinha medo de dizer o que pensava e de cortar oba oba desnecessário. Se alguma resenha ou mesa redonda pesasse mais pro entretenimento e gracinha que pros assuntos da bola, despachava de vez. Certo dia, questionado sobre a beleza das mulheres no Maracanã em uma partida, respondeu carinhosamente: “de mulher eu falo lá do lado de casa, em Copacabana. Lá tem as melhores do planeta. No Maracanã eu falo de futebol”.

 

Talvez falte muito um Saldanha. No futebol, nas TVs, na política, no mundo. Falta o cidadão que conteste o problema; o jornalista que descubra o problema; o ativista que encare o problema; o Linha de Frente que tente destruir o problema. 

João Saldanha era tudo isso e mais um pouco. E nunca teve medo de ser quem foi de verdade. Podem tê-lo derrubado da seleção, das TVs, dos programas, mas jamais de seus cangotes. Não à toa, nenhum tanque de guerra foi capaz de extermina-lo. Só descansou quando seus Pulmões não aguentaram mais. Nenhum funciona eternamente. Ainda menos de quem estufara tanto o peito constantemente. Você jamais verá tanta imposição. Tanto que até a sua biografia foi barrada. 

São 100 anos de Saldanha; desde 90, são dolorosos anos sem Saldanha. Anos de muito medo, forçação, falsa simpatia, mascaradagem de sobra.

Namoro de Neymar em pauta, corrupção de Del Nero fora. Valores exatos do carro CR7 expostos, milhões no bolso de Seph Blatter ofuscados. Por preguiça, por medo, por não ter quem queira fazer diferente. Certamente, é disso que você sente falta. 

E no dia cem de João, eu não aguento mais nenhum dia sem João. Sobra medo sem o Sem Medo. Talvez, por isso, seja um dos únicos a não ser “só mais um João”.

Parabéns, meu mestre. Não precisei te conhecer para te reconhecer. Um dia lhe dou um abraço aí em cima. Enquanto isso, vida que segue…

Ps: até achar uma foto de definição foi diíficil. Saldanha foi tudo e mais um pouco. Só não foi medroso. 

Abs,

Daniel O. Braune 

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