De Braune para Mendonça. Digo: de Daniel para Milton.

Conheci Milton da Cunha Mendonça em janeiro de 2018, em uma partida do Botafogo pela Taça Guanabara. Um amigo nos apresentou e fomos trocando ideia nos jogos daquele carioca.

Na partida de ida da final do carioca contra o Vasco, no Nilton Santos, eu estava antes do jogo entrando na padaria ao lado do bar da Resistência, na esquina entre os setores norte e oeste. Fui o primeiro dos meus amigos e estava sozinho. Quando estou caminhando, escuto alguém me chamar: “Fala, Dani!”. Olhei pra trás e vi um Mendonça absolutamente sorridente, me cumprimentando e puxando assunto.

Vale ressaltar: Mendonça não era ligado no mundo da internet. Talvez não fizesse ideia do que significasse Facebook, YouTube ou Instagram direito. Mendonça não sabia quem era o Braune, o Braunefogo, o cara dos stories. Enquanto conversávamos, três botafoguenses me abordaram para tirar foto e conversar comigo. Ele comentou: “o pessoal gosta muito de você, né? Muito bom”. Para ele, eu era o Daniel, carinhosamente o Dani. Essa simplicidade também me fez enxerga-lo apenas como Seu Milton. Talvez esse fosse o grande segredo.

Tal como Heleno de Freitas, Mendonça foi eternizado nas páginas mais importantes da história do Botafogo mesmo sem títulos. Melhor: Mendonça foi o responsável por eternizar páginas que sem eles seriam bem nulas em nossa trajetória. Alguém precisava fazer esse elo. Entre o esquadrão de ouro com os maiores jogadores da história e a década dourada em 90. Só alguém que fosse mais que troféus. Mais que Mendonça. Alguém que fosse Seu Milton. Precisou de sete anos para fazer a ponte da 7 de Garrincha e Jair à de Túlio, mesmo usando a 10. Encantando o coração de cada botafoguense, acendendo a chama da esperança daqueles que não viam glórias há tanto tempo – e poderiam até ter visto. Não fosse mais uma das tristes histórias injustas que enfrentamos em 1981, contra o São Paulo, no Morumbi.

Mas isso talvez seja detalhe. São sete anos em que vestiu a camisa do Botafogo como se fosse a sua pele. Por trás do uniforme de herói de Mendonça, existia uma estrela dentro peito de Seu Milton que dava a ele todos os poderes que lhe foram concedidos. Alguns deles mortais. Fosse juvenil ao marcá-lo, caía no chão. Fosse Júnior, pior ainda. Cairia nos gritos da massa alvinegra ao ver aquela entortada.

A conexão foi tamanha naquele momento que Seu Milton nunca mais deixaria o Botafogo. Estaria nas arquibancadas do Maracanã por muito tempo após encerrar a carreira, e seguiria junto com os novos tempos ao estádio Nilton Santos. Sem se importar com qualquer falta de reconhecimento. Com qualquer apreço por fama ou coisas do tipo. Ele só queria ser o Seu Milton. Recordar o Mendonça que fora antes. E fazer amigos como o simples Daniel, fosse ele Braune ou não.

Queria ter me despedido de você. Mas acho que alguém aí em cima vai te contar o que faço da vida. Talvez você se sinta feliz vendo que o Dani fala por uma boa parte de botafoguense e os representa. Assim como representa você hoje, nessa homenagem, e tá expondo o grande ser humano que você foi para que tantos irmãos de camisa saibam. Para que muitos que já conhecem Mendonça, conheçam o Milton. E até um pouco do Daniel, que você me fez refletir que também existe. Você tem esse dom. Fazer com que nos enxerguemos como nós mesmos. Assim como sempre te veremos como ídolo não pelo que, por quem você foi.

Um abraço do Dani. Nos vemos um dia.

Daniel Braune

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