Estamos ficando doentes

Há vinte dias que a gente sabe que Flamengo e Botafogo vão se enfrentar em busca de uma vaga na final da Copa do Brasil.

Não só isso: é o maior BotaFla desde a final do campeonato brasileiro de 1992.

Pensei nos 180 minutos emocionantes que acompanharíamos, nos dois jogos espetaculares que aconteceriam, em dois times qualificadíssimos se enfrentando. De um lado, o investimento alto e a qualidade técnica de sobra; do outro, a disposição tática perfeita de um time limitado que se superava com disciplina. Era o cenário PERFEITO para um Botafogo e Flamengo. Era.

Afinal, esse cenário ficou em segundo plano. Embora o palco fosse o gramado e os atores os jogadores entre as quatro linhas, os holofotes e as câmeras estavam voltadas para outro lugar. A preocupação do público era outra.

 

Cinco dias depois das partidas das quartas de final da Copa do Brasil, veio o sorteio do mando de campo. Enfatizo: mando de campo. É a chamada para um dos capítulos mais duradouros dessa novela. 

Jogo de ida com mando do Botafogo; o de volta, com mando do Flamengo.

O presidente do Botafogo começa as declarações e dispara em prol da torcida única. Acha perigoso a entrada de flamenguistas, num geral, no estádio Nilton Santos.

O presidente do Flamengo quer colocar carga de apenas 5% para os torcedores do Botafogo, caso o jogo de volta fosse na Ilha do Urubu. Polêmica. E do jogo ninguém falava.

Surge o boato de que os dois jogos poderiam ser no Maracanã. Só boato. Jogo confirmado pro Nilton Santos. No fim das contas, dúvida pra lá e pra cá se a volta seria no Maraca ou na Ilha. Muita correria em busca da informação correta nos bastidores. Enquanto isso, treinos das equipes vazios. Ninguém quer saber do jogo.

 

Semana do jogo: Jair fala que um treinador estrangeiro chegando ao Flamengo é ruim para o mercado de técnicos nacional. Manchetes, falatório, discussão, apedrejamento. E, no mesmo programa, Renato Gaúcho fala em alto e bom som: “NÃO VAI DAR CERTO”. Pouca gente sabe. Só se noticiou sobre Jair. Os veículos precisavam de cliques. Sobre a partida? Nada ainda.

 

Três dias para o jogo: Flamengo vai ao STJD afirmando que o Botafogo não respeitou o estatuto do torcedor. Disse que deveria liberar a carga dos ingressos 72h antes. Errado. O prazo correto era de, no mínimo, 48h. Mesmo assim, poderia haver bom senso e a liberação ter sido feita antes. Mais notícias. E nada sobre quem queria saber do jogão.

Com a demora, torcedores do Flamengo querem aparecer e compram ingressos no setor destinado à torcida do Botafogo. Confusão. Mais notícias. E nada de informações do clássico.

 

Enquanto isso, nos bastidores de uma emissora…

-Hora do jogo! Divulga as escalações aí! É o máximo pra se falar do jogo. 

-Alguém suspenso?

-Pouco importa! Divulga ali a confusão da torcida apedrejando o ônibus.

 

-Jogo rolando, nada de interessante. Filma a briga ali na torcida! Lata, sapato, tudo voando.

-Senhor, quase saiu gol do…

-BOMBA NA TORCIDA! Filma lá!

 

-Tá aqui chefe, cobertura dos melhores momentos do primeiro tempo.

-Só quero as imagens da torcida do Flamengo na entrada da Sul. Parece que o Botafogo fechou a entrada, o GEPE, sei lá, foda-se. Só filma.

 

Era bola na trave do Diego, lance de perigo do Flamengo, arrancada e contra-ataque pro Botafogo… reparei algo, me espantei. Ninguém olhava pro jogo. Apenas pro lado. Um torcedor do Botafogo chamava familiares do Vinicius Junior de macacos. Porrada nele, foi retirado, preso. O jogo rolando, e a gente tendo que prestar a atenção nisso. 

Enquanto isso, nas cabines…

 

-Senhor, fim de jogo! Tá aqui a lista de jogadores amarelad…

-Confusão na norte! Porrada no estacionamento e nas ruas! Bombas! Publica logo, foda-se de quem é a briga! Fala só que é de organizada! E seja rápido! Temos que voltar pra emissora e caçar algumas coisas pra galera clicar. Visita no site tá fraquíssima hoje. Vamos ver se a gente caça alguma mentira sobre confusão na torcida do Flamengo, ou erro no mosaico… sei lá.

 

Dentro do carro, o chefe da redação pergunta curioso:

-Quanto foi o jogo mesmo?

 

Saio do estádio, abro meu telefone, encontro amigos nas ruas. Tento falar do jogo. Só tento.

 

– E aí, e aquela bola na trave do Diego?

– Racista!

– E o Jair? Que baita linha de defesa.

– Técnico xenófobo!

– E o mosaico? Curtiu?

– Bandidos! Tacaram latas, sapatos, tudo!

– E a festa das torcidas? Deram um show!

– Só querem saber de fazer merda! Bloquearam saídas, arremessaram coisas, apedrejaram ônibus!

 

Ninguém mais fala de futebol. Nem no clássico dos clássicos. Nem na decisão das decisões. Estamos ficando doentes. Torcedores, jornalistas e comentaristas.

Agora eu entendi porque tantas emissoras amam postar o clichê “não é só futebol”. Realmente. Tem muita coisa mais importante pra ser dita. 

É muito mais favorável pôr ainda mais lenha na fogueira na relação negativa entre as duas diretorias, que há tempos protagonizam birras e atitudes similares às de crianças de 12 anos, que não aceitam quando o time perde. Com isso, a violência aumenta, o clima fica ainda mais hostil, e tudo se complementa em uma linha tênue.

O futebol? Fica em segundo plano. Dá menos audiência hoje em dia.

 

Abs,

Daniel Braune

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