Guerra de egos

“A maioria das vezes é contra a gente, hoje foi a favor”.

A declaração de Nenê após a polêmica partida entre Vasco e Flamengo me inquietou, e não foi a primeira vez; discursos assim são recorrentes. Um indivíduo erra, beneficia um lado, prejudica o outro.

O prejudicado ataca: “VERGONHA, ASSALTO, VEXAME, PARA O CAMPEONATO”.

O beneficiado desconversa: “marcou, tá marcado, geralmente erram mais contra nós”.

E não falo apenas do camisa 10 do Vasco. O clichê hipócrita dos jogadores e dirigentes em relação aos erros de arbitragem nos leva direto ao centro do significado da palavra egoísmo.

Me afetou? Chilique. Ganhei com isso? “Faz parte”.

Relembro a final do carioca de 2014, em que o Vasco era campeão até que o Márcio Araújo, completamente impedido, marca o gol que dava o título ao Flamengo. Questionados, os jogadores do Flamengo desconversavam; diretores sequer se abalaram. O clima era de festa. O goleiro rubro-negro, Felipe, inclusive, soltou uma famosa pérola jamais esquecida, de tão patética: “roubado é mais gostoso”.

Do lado do Vasco, reclamação e indignação total – e com razão.

Fica claro e evidente o sentido do famoso ditado: no dos outros é refresco. Prejudicado ataca o favorecido, que devolve com ironia e indiferença. Ataques são protagonizados nas entrevistas dos dirigentes e jogadores na TV e no Rádio. Nas redes sociais, provocações e tentativas de justificativa para ambos os lados. E quem errou? Ninguém comenta.

Já não é de hoje que árbitros perdem o controle em partidas onde o pulso deve estar o mais firme possível. A falta de preparo é nítida. E não é preparo técnico, é emocional, psicológico. O problema não está no entendimento da regra, mas sim na postura deles – e não apenas por culpa deles. Afinal, com tanta verba destinada aos mais desconhecidos e misteriosos meios, onde está a parcela para se investir na profissionalização total do árbitro?

Vide o ineditismo teatral protagonizado ontem pelo árbitro Índio? Árbitro simulando agressão? É a prova viva de que não possuem pulso firme. Não têm confiança ou sequer conhecimento de que são a autoridade máxima em campo. Se você é o chefe dentro das quatro linhas, não há para quem encenar. Jogador encarando árbitro? É rua e ponto. É sinal de que, inseguros e despreparados, chega-se a um ponto de que, de tão desmoralizados, os árbitros precisam fazer simulações para justificar expulsão. O despreparo é tamanho que leva ao desespero. Quem assistiu Corinthians x São Paulo, horas antes do clássico carioca, viu outro show de horror protagonizado pela insegurança do juiz Vinícius Furlan. Aliás, cartão amarelo por comemorar provocando o rival… vamos de mal a pior.

E num colapso nervoso do trio carioca totalmente desmoralizado, poupo palavras para discutir o pênalti convertido por Nenê na última bola do jogo.

Creio que seja hora de esquecer birra, egoísmo e tudo que seja proveniente de clubismo em prol de uma causa. Camuflar os benefícios e só cuspir fogo ao ser prejudicado é a fortificar a base de toda a desordem causadora do problema. Sofreu o fatídico golpe do erro? Reclame. Foi ajudado? Admita. Só assim para haver pressão e, por consequência, mudanças na questão da profissionalização da arbitragem no país. Afinal, se há erro para ambos os lados constantemente, não é roubo, é simplesmente, erro, causado por despreparo, que ontem beneficiou o Vasco, que amanhã pode voltar a ser prejudicado, como já foi por muitas vezes.

Roubaram o seu vizinho? Denuncie também. O próximo pode ser você.

 

Daniel Braune

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