Haja imenso prazer.

Fica a tristeza e a irritação porque poderia ter sido diferente. As chances desperdiçadas no primeiro tempo, a falta boba de Igor Rabello que resultou no gol em que Matheus Fernandes estava desatento à chegada de Barrios. Tanto se falou em Grêmio que acabamos perdendo, no fim, para nós mesmos.

No entanto, tudo se encaixa, se for parar pra refletir: os gols perdidos, a desatenção, a infantilidade, a malícia que faltou na hora decisiva. Tudo faz parte de algo que esse time não tem: experiência.

E, por isso mesmo, me recuso a esbravejar ou liderar qualquer tipo de sentimento odioso a uma equipe que faz o que tem feito desde 2015. 

O semblante é um cenário de filme com um toque realista, já que o final não foi feliz – mas que emociona pelos detalhes.

Do falido e penhorado clube de 2014 a uma das oito forças do continente de 2017, o Botafogo deixa um legado: futebol é planejamento, não dinheiro.  Pegamos um jogador do Figueirense ali, outro da Chape aqui, trouxemos um do Madureira, outro do América de Natal, o terceiro reserva do Palmeiras, um do Náutico. FORMAMOS um treinador. Isso dentro do BRASIL.

Do Z4, engrenamos à Libertadores, e só paramos de subir no dia 20 de setembro. Teve gente que parou bem antes. Gente com muito dinheiro, muito craque de luxo, patrocinador milionário, arena multiuso. A gente captou, de longe, que o futebol é muito mais que um Brasfoot ou uma Master Liga. Viramos exemplo de preleção nos mais precários vestuários do país. E isso me enche de orgulho.

Além de toda a história e o romantismo extraordinário que dá graça ao mundo do futebol, o Botafogo expandiu a sua marca – mundialmente. Expôs ao mercado os seus jogadores, que vão gerar um bom caixa ao clube mais endividado do país. Gatito Fernandez, que veio de graça, por exemplo, já é monitorado em cotação de euro. 

Parece desculpa ou papo furado de um perdedor nato do século. Mas quem disse que eu me considero um perdedor? Pros rivais, foi um prato cheio. Parece que foi a mesma história de todo o ano: “quase”. No entanto, a gente sabe que o pesadelo só se forma pela proximidade que se tem do paraíso. Não à toa o vice-campeão é, sempre, o mais humilhado. Quanto mais alto se voa, mais dura é a queda. Ah, se tivéssemos caído pro Olimpia. Ah se Gatito não tivesse pego aqueles pênaltis… que seriam dos nossos outros mosaicos? Da afirmação do nosso técnico? Das atuações de gala dos nossos subestimados jogadores? Das nossas histórias? 

E os amigos que você fez na fase de grupos? E o beijo que você deu naquela menina nas oitavas de final? E o seu filho, que viu seu time se agigantar no continente pela primeira vez em quase 25 anos? 

E tudo isso pode se repetir. E VAI se repetir. Talvez num fim ainda melhor. 2018 vem aí. Temos tudo para voltar a dar as caras pela América. Desta vez com mais corpo, mais alma, mais cancha, com as marcas das cicatrizes e feridas que nos fazem crescer.

Nado, nado, mas morro na praia? Tudo bem. Mas eu renasço. A gente reencarna em novos jogadores, novos momentos, novas épocas – novos sonhos. Que, se não se tornarem realidade mais uma vez, a gente vai colecionando as cicatrizes e amando cada vez mais esse clube que nem ele próprio sabe porque é tão amado. Faz parte da sua mística. Seu símbolo é uma estrela. Ela está muito longe. Você pode vê-la, senti-la, mas jamais decifrá-la. Sabe-se lá o que tem dentro daquilo. Mas o seu encantamento com ela será eterno. 

Me sinto triste porque dava pra ser diferente. Me sinto irritado porque dava pra ser diferente há muito tempo. Me sinto orgulhoso ao analisar todo o conjunto da obra. É muito bom ser exemplo de superação.

Me sinto feliz ao terminar de escrever isso aqui, e nem sei porque. Se é papai do céu, os amigos que fiz graças a tudo isso, o fogo que no meu peito não se apaga. Os momentos ruins, que, apesar de muitos, ainda são só um minúsculo jatinho d’água em meio a uma queimada imensurável. 

Por fim, estou sorrindo maroto de novo. Parece até que a gente gosta de sofrer, não é mesmo? 

Levanta essa cabeça, amigão! Você torce pelo Botafogo. Não precisa provar mais nada a ninguém. O amor verdadeiro tá estampado na tua alma. 

O sangue ainda ferve por você. Caminho sem expectativa, mas as placas nas ruas ainda me dizem que estou estrada dos louros. Haja imenso prazer.

Daniel Braune 

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