Jefferson: do 1º ao jogo 454

Fala capitão. Lá vou eu de novo. Dessa vez não vou ser breve. Não quero. 

Talvez a repetição de palavras e adjetivos que formam parágrafos e mais parágrafos de homenagem se tornem desgastantes e chatos. No entanto, muitos justificáveis de condenados de alguma forma. 

Não à toa, são 454 vezes. 454 orações de joelhos sob as traves, de olhos fechados, antes do apito. Quarenta mil minutos de atenção constante, até exponencial, mas sempre solitária. Tal como a de segurança noturno. Minutos e minutos de solidão e silêncio, a estar preparado para milésimos de ação defensiva.

Jefferson e seu trabalho silencioso. Seu jeito simples, onde o agir sempre foi mais que o gesticular. Conquistar uma torcida tão exigente como a nossa nunca foi fácil. É difícil cativa-la. Com palavras. Você tem que fazer.

Fazer com as mãos. A partir das defesas incríveis de um time refém de arqueiros, na maior crise, em 2004, fugindo das cinzas de mais uma segunda divisão que afundaria o clube de uma vez por todas. O garoto franzino de 21 anos, vindo modestamente do Cruzeiro com Flávio Tenius (outro a merecer aplausos), apaziguava a situação, no Caio Martins e nos demais estádios do Brasil. 

Tinha tudo para seguir nos ajudando, mas a família sempre foi virtude de um homem de caráter, antes de mais nada. Jefferson precisava de uma nova vida. Rumou à Turquia – e nós ao pesadelo. Quatro anos, oito goleiros, inúmeras frustrações inesperadas, cômicas para quem estava do outro lado. O gol do Botafogo nunca andara tão desprotegido. 

Falhas que nos tiraram títulos em 2007 e 2008 poderiam nos colocar novamente no buraco em 2009. A segunda divisão era novamente um pesadelo. Ninguém melhor que o homem de atitudes via reflexos rápidos para resolver a situação.

Jefferson volta da Turquia e repete 2004. Mas desta vez, voltara para ficar – e ninguém imaginava que por tanto tempo. A história consequente fala por si. Tal como as mãos de Jefferson: não há necessidade de explicações.

A mão parou o Boi, o império do amor e toda a injustiça dos últimos três anos de vice-campeonato, muito pela falta de atitude do nosso lado também. A confiança se transformava em liderança – e rendimento técnico. Com o auxílio do preparador Tenius, Jefferson começava a entrar no escalão dos melhores goleiros do planeta.

Constantemente convocado para a seleção, engolia outros goleiros do país com defesas inimagináveis, a ponto até de torcedores rivais do Botafogo o quererem como titular do Brasil. Talvez devesse ser em 2014. E não seria falta de mérito. 

E que ano melancólico foi esse último citado… depois de três anos em alta, Jefferson e Botafogo viam a segunda divisão chegar de vez, graças a um tsunami causado pela sujeira política do clube. Mas o goleiro das atitudes não nos largava. Nem de mão, nem de coração. 

Houve quem pensasse que haveria despedida em 2015. Eu mesmo. Era momento do Jefferson alçar novos voos. Futebol internacional, titularidade com a camisa do Brasil, Copa do Mundo. Ele estava decidido: Botafogo na série B. 

Como?! Não tem explicação. Jefferson só faz. Por amor. 

Liderança, alma e defesas. Coisas que fizeram Jefferson, estático na função de arqueiro, recolocar o Botafogo na primeira divisão, mesmo que destroçado. 

Vieram 2016 e 2017, sem as atitudes e ações de Jefferson – mas com o legado. Tudo que o goleiro havia batalhado em oito anos, acontecia sem sua presença física. Volta por cima, determinação, Libertadores, novo Estádio Nilton Santos… suas atitudes tinham alavancado tudo isso. Que mágoa não termos tido você por boa parte desse tempo. Ao menos, foi bem representado. 

E quando voltou, engoliu o ataque do Atlético Mineiro e pegou até pênalti, depois de um ano e meio parado. Surreal. E são dezenove pênaltis. De Adriano, Juninho Pernambucano, Fred. Na seleção, até o tal Lionel não pôde comemorar. 

Peço desculpas pelas palavras em excesso, parágrafos massivos e histórias detalhadas. Eu não tenho o mesmo dom do nosso ídolo. Sei falar, sei escrever, até bem. Agir, proteger, é com ele. Fosse comigo, eu era ídolo do Botafogo hoje. 

Espero que não se incomodem. Mas acho que ele merece – isso e muito mais. Depois de tanto feito, superação e dor. Tudo sem reclamar. Embora pudesse e possa, pois nada de errado foi culpa dele, pelo contrário. Mas Jefferson só age, trabalhando, se superando, com fé, como manda a escrita de sua linda descendência. 

Hoje, mais uma vez, espero entrar no Nilton Santos e vê-lo ali, repetindo o gesto. De joelhos, mãos aos céus, olhos fechados para o gramado, mente aberta para uma conversa com Deus. O apito soa, você se levanta. E nos protege como pode. Mais uma vez. E que esse ano não sejam as últimas.

 

Um abraço, mais uma vez, de Daniel Braune. 

Este post tem um comentário

  1. Parabéns pelo o texto.
    O nosso IDOLO JEFFERSON merece .
    Ele é merecedor de todas as coisas boas.
    E tmb espero q ele não se aposente .

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