Julinho Botelho: o coração mais honesto da história do futebol

A história de Julinho mais se assemelha à de um dramático personagem de novela que a de um jogador de futebol. Romântico, enfático, dramático, melancólico – e de honestidade jamais vista. O Signore Tristezza é o personagem desta semana. 

Quando falamos de Julinho, o verde e o vermelho – tanto da Lusa portuguesa quanto do italiano Palestra – têm ênfase em sua vida. Só é palmeirense ou lusitano roxo quem conhece Julio Botelho. Aliás, roxo não é só na intensidade do torcedor da colônia italiana; é a própria cor de Julinho na própria Itália. Há quem diga que Julinho é sinônimo da saudosa Florença, representada pelo roxo.

O INÍCIO – 1950

Julinho é mais um da enorme safra de pontas-esquerda da história do Brasil – especialmente nos anos 50 e 60. Alto, rápido, bom finalizador, firme e preciso. Boa visão de jogo. Destacava-se mais pelas assistências que pelos gols muitas vezes.

Bateu e muito, primeiramente, às portas do Corinthians. Reprovado algumas vezes, recebeu sua primeira oportunidade na Juventus de Mocca. Em pouco menos de um ano, foi vendido à rival Portuguesa por 50 mil cruzeiros. Começava a história de um dos maiores ponteiros do mundo nos anos 50.

PORTUGUESA – 1951: o primeiro Reinado

Botelho chegou á Lusa em 1951. Se sua estreia não fora das mais empolgantes – derrota para o Flamengo por 5 a 2 no Maracanã, pela Copa Rio-São Paulo – talvez nem ele imaginara o que seria o restante. Logo na partida seguinte, marcou dois gols na vitória diante do América-RJ por 4 a 2 no Pacaembu. Em sua segunda temporada na portuguesa, o ponteiro já conquistara a Rio-São Paulo em 52. 

Com as boas atuações e o protagonismo aumentando, foi convocado para a Copa de 1954, junto aos companheiros de clube Djalma Santos e Brandãozinho. Foram os primeiros lusitanos a figurar em um mundial. Entre os atacantes, Julinho foi o pioneiro máximo. 

 Pinga, Brandãozinho, Djalma e Julinho: o quadrado mágico da Lusa. (Foto: Orgulho de ser Lusa).

A COPA NA SUÍÇA – 1954: A Portuguesa é o poder de fogo do Brasil no mundial.

 Julinho , Djalma Santos, Pinga I e Rubens na Seleção Brasileira (Foto: fit-futeboldetodosostempos.com.br)

Em sua primeira – e única – participações em copas, Julinho fez parte do último escrete brasileiro a jogar de camisas brancas como uniforme principal. Mesmo não sendo a amarelinha, Julinho a honrou como possível, especialmente ao lado de Pinga, seu companheiro e maior artilheiro da história da Lusa até hoje.

Marcou dois gols nos únicos três jogos do Brasil naquela Copa. Na estreia do Brasil, Julinho, Pinga e o craque Didi tontearam os mexicanos na goleada por 5 a 0. Julinho marcou o último gol de partida. No segundo jogo, o empate entre Brasil e a forte equipe da Iugoslávia resultou em um fato curioso, impensável nos dias de hoje: os jogadores brasileiros pensavam já terem sido eliminados.

O escrete já se preparava para arrumar as malas no hotel quando foram avisados, na véspera, que estavam nas quartas de final. O adversário? A temida Hungria, melhor seleção do mundo e favorita a levar o mundial.

Sem tempo e sem ordem, também não houve progresso. O Brasil lutara, mas em sua primeira partida de amarelo na história, caía diante do esquadrão húngaro, que foi superior na partida, apesar do apertado placar de 4 a 2. Julinho marcou o segundo brasileiro quando a partida estava 3 a 1 na etapa final e reativou alguma chance de esperanças, mas os húngaros fecharam o caixão no fim da partida. Uma briga no fim do jogo com cusparadas e ponta-pés fez Nilton Santos, Tozzi e Bozsik serem expulsos. Ao fim da partida, briga no vestiário com direito a garrafada de Puskas em Pinheiro. Julinho não se envolveu. 

 

Aparentemente, se muitos repórteres europeus se atentavam à chamada “Batalha de Berna”, alguns italianos optaram por notar a ponta-direita do Brasil. Julinho era observado pela Fiorentina.

E se parecia calmo e simples por fora, por dentro era um turbilhão de emoções e drama. Não à toa, seu comportamento lhe rendeu uma alcunha curiosa em outro país.

“SIGNORE TRISTEZZA”, O REI DA ITÁLIA – 1955

 

Julinho se tornou um dos homens mais idolatrados da história do futebol italiano – e da Itália inteira no geral. 89 jogos, uma história infinita. Destaque logo no primeiro ano, que resultou no título nacional – o primeiro trazido a Toscana na história. A cada jogo, se tornava maior e mais importante na história da própria região do país. A contratação mais cara do ano tinha vingado. 

 1955: Julinho era o comandante da máquina da região de Toscana que conquistou a Itália. (Foto: Orgulho de ser Lusa)

No entanto, idolatria, dinheiro, fama, prestígio e toda a mordomia e luxo que os italianos lhe ofereciam ficavam pequenos perto dos sentimentos das particularidades de Botelho. Seu planejamento de fica apenas por duas temporadas na Itália foram surpreendidos por uma proposta irrecusável de renovação. Julinho ficou – contra a própria vontade. Tinha saudades da mãe.

Julinho entrava em campo, marcava dois gols. Ao fim do primeiro tempo, voltava para o vestiário e se afogada em lágrimas. Os companheiros não sabiam o que fazer. Nem os torcedores italianos, apaixonados por Botelho, que ofereciam jantares e vinhos à rodo nos mais caros restaurantes de massa da região, animavam o ponta-direita. 

Nada faria Julinho feliz que não uma volta a São Paulo – nada mesmo.

“Agradeço o convite, mas não acho justo. Atenciosamente, Julio Botelho.” – 1958

Um dos maiores pontas-direita da história do futebol brasileiro e mundial não é muito conhecido no mundo do futebol, e talvez não haja lembranças ou recordações na proporção que mereça. 

O motivo talvez seja algo impensável nos tempos atuais: a recusa de uma convocação à Copa do Mundo. A explicação? Mais impensável ainda. Julinho falou de “justiça” com os outros ponteiros que atuavam no futebol brasileiro ao dizer não à Copa de 58. Parece desculpa. Só parece. 

Mesmo que em outra época, recusar a seleção brasileira era algo praticamente impensável. Aliás, ainda menos naqueles tempos. A seleção era uma das poucas vitrines a um mercado ainda nem tão valioso no planeta. Mas simplicidade de Julinho falava alto.

Recusou em respeito aos que atuavam no Brasil e ainda não tinham uma vida profissional e financeira assegurada como a dele. Sabia que a Copa do Mundo era a única vitrine à época capaz de ajudar os craques brasileiros a aparecerem. Sem saber, sua recusa faria o mundo conhecer mais que um craque, mas sim um anjo – talvez a mais fascinante criatura a jogar uma Copa. Garrincha fora chamado para substituí-lo em 58. O homem torto e desengonçado de Pau Grande iria à Suécia se apresentar – e espantar – o planeta.

A idolatria final: linha atacante de raça – 1958

 Palmeiras campeão brasileiro de 1960

Ao terminar o vínculo com a Fiorentina, Julinho voltava ao Brasil, mas a Itália não saíra dele. Retornara para defender o Palmeiras, logo a colônia italiana – onde permaneceu por nove anos. 81 gols, um título brasileiro, dois paulistas, uma Rio-São Paulo – e mais uma vez tendo seu nome marcado eternamente na história gloriosa de um clube grande.

E, novamente, quatro anos depois, outra recusa à Copa do Mundo.

Honestidade sem tamanho – 1962

Se recusar uma Copa já é impensável, imagine duas. Julinho se machucou no último treino antes da estreia do mundial, no Chile. O técnico Aymoré Moreira ainda insistiu para que Julinho permanecesse com o grupo, alegando que havia tempo de recuperação até os jogos decisivos. Mas o ponta, em mais um golpe de honestidade e sinceridade, deu como certo que não se recuperaria a tempo. Voltou para o Brasil e cedeu seu lugar a Jair da Costa. 

Da injusta vaia ao aplauso por mérito: Maracanã em Choque – 1959

 Capa da Manchete Esportiva no dia 14 de maio de 1959: Julinho fazia 200 mil pessoas mudarem de discurso ao mesmo tempo.

Maracanã, 13 de maio de 1959.

Amistoso contra a seleção inglesa, a qual havíamos empatado em 1958. Foi o jogo que impediu o aproveitamento perfeito no primeiro mundial. As ausências de Vavá e Zagallo, já esperadas, já eram motivo de preocupação à torcida presente no estádio Mário Filho. 

O locutor do estádio anuncia os nomes escalados por Feola. Eis a surpresa: “número 7: Julinho!” – as vaias foram imediatas. A escalação de Julinho significava a presença de Garrincha no banco de reservas. Mané estava mal, gordo, sem ritmo e mais preocupado com a cantora Angelita Martínez – mas os cariocas pouco se importavam. 

“Faz eles engolirem essas vaias” – foram as palavras de Nilton Santos ditas a Julinho antes da bola rolar. 

Julinho era sensível. Um homem apaixonado pelo Brasil. Eis que o ponta que sonhava a vida toda em fazer a torcida brasileira feliz com a camisa da seleção, via um Maracanã lotadocontra ele. 

Subiu chorando os degraus de acesso ao gramado e, ainda chorando, cantou o hino. A vaia não parava. Mas o jogo começou e, ali, Julinho convenceu-se de que precisava ser Julinho, não um menino amuado. Mal foi dada a saída, descadeirou um inglês com um drible. O estádio silenciou. Aos dois minutos, fez o primeiro gol. O Maracanã quase desabou em aplausos. E assim foi pelo resto do jogo: a cada grande jogada, ou se apenas tocava na bola, o Maracanã delirava. No segundo tempo, ainda cruzou para Henrique, do Flamengo, fechar em 2 x 0.

Naquele dia, Julinho foi grande na vaia, e o Maracanã, no aplauso. Os dois saíram maiores do episódio. Mas há de ser um craque para dobrar um estádio. – Ruy Castro, na biografia “Estrela Solitária – um brasileiro chamado Garrincha”.

 Da lágrima à vibração: Em dois minutos, dobrou o Maracanã. Das vaias ao silêncio; do silêncio ao aplauso.

 

Julinho é a prova da idolatria sem querer se idolatrar. É o reinado por bom mandato, é o protagonismo sem forçar barra. Sabia seus limites, onde devia e merecia estar. Quando não dava, se pronunciava. Se consideram falta de audácia, lembro-lhes o siginificado concreto da palavra atitudeuma norma de procedimentoque leva a um determinado comportamento. Ato totalmente ligado à ação, não à promessa. 

Julinho não prometeu ser quem foi à Portuguesa, Fiorentina ou Palmeiras; não jurou felicidade quando decidiu permanecer na Itália por mais tempo; não jurou achar justo ir à Copa de 58 – mesmo que fosse; jamais prometeu se esforçar para dizer que dava pra jogar em 62; não prometeu substituir Garrincha à altura e fazer um Maracanã que o vaiava, aplaudi-lo; ele simplesmente fez tudo isso. Fez porque fez, porque dava, porque estava a seu alcance. Sua honestidade, sinceridade e sensibilidade humana pouco vista em jogadores de futebol tiveram seus preços – mas também suas premiações.

Premiados foram os que tiveram Julinho como ídolo. Ainda mais no seu time de coração. Se hoje muita gente se apega a olhar apenas para o profissional para tê-lo como ídolo, a fim de fazer com que ele não perca brilho, talvez Julino tenha mal acostumado seus fãs.

Eles não conhecem o garoto da Penha,o jogador da Lusa, o ídolo da Itália, do Palestra, o filho da dona Thereza; simplesmente conhecem Julio Botelho – como um todo.

Daniel O. Braune

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