Magrão: um ídolo “apenas” regional por pura geografia

O Brasil é tão grande e vasto que sua diversificação as vezes faz com que nossas preciosidades caiam no esquecimento – ainda mais se tratando de um lugar esquecido desde sempre.

Estamos acostumados a analisar os ídolos dentro do nosso centro de referências, num Brasil reduzido em tamanho territorial quando ligamos a TV; nela, em grande maioria, só há espaço para a matéria prima do sul-sudeste.


Depois de ver Magrão salvar – pela sétima vez – o Sport em uma disputa de pênaltis, meu alarde foi instantâneo ao escutar, pela trigésima vez em uma cobrança, o repetitivo som por trás da imagem do campo: "PEGOU MAGRÃO!".

Não se trata de um destaque, tampouco algo somente "impressionante"; Magrão já é uma realidade – vide os seus 40 anos de idade;

12 desses só de Sport. Desde que chegou ao clube, conquistou espaço e virou Rei em que o mascote já é um. São mais de 600 jogos com a camisa rubro-negra, defesas de tirar o fôlego e muitas ações super-heróicas que já levaram o Sport tanto à vida – como na Copa do Brasil de 2008 – quanto o salvaram da morte – como em inúmeros riscos de rebaixamento, e no mais recente dos casos – que sempre se atualizam – na noite da partida contra o Danúbio. Magrão evitou um verdadeiro vexame no Uruguai pegando aqueles dois pênaltis.

Seu heroismo está acima de qualquer divindade já vista em um território castigado pelo contexto histórico brasileiro.

 

São 30 pênaltis pegos, sete vitórias em disputas e milhares de milagres em doze anos, que continuam a acontecer mesmo se tratando de um atleta de mais de quatro décadas anos de vida;

que não é lembrado como muitos que não foram metade do que ele é. Se no Rio de Janeiro perguntarmos a dez pessoas que acompanhem BEM o futebol se ao menos conhecem Magrão, talvez alguns não saibam de primeira – nem dando referências. E não é culpa deles. Se Magrão fosse até mesmo de um mediano clube do eixo do camarote VIP da parte baixa do mapa da imprensa brasileira, seria talvez consagrado, ou no mínimo reconhecido instantaneamente por todos. É o caso de Aranha, ídolo da Ponte Preta – que para mim não é maior do que Magrão; 

esse que também nunca foi lembrado em uma convocação, nem mesmo no auge de sua carreira, nenhuma vez sequer. E cá entre nós, se goleiros nem tão protagonistas como Doni, Gomes – que estiveram na seleção nos anos do auge da carreira de Magrão – foram lembrados, metade dos números do arqueiro do Sport o colocariam debaixo das traves canarinhas pelo menos uma vez. Talvez se fosse protagonista de um outro rubro-negro, até mesmo o paranaense, já teria defendido as balizas do gigante pentacampeão. Vide Weverthon, que para mim, não fez metade do que já fez Magrão na carreira.

 

E suas ações vão muito além do gramado. Em 2015, quando decai e perde a condição de titular para Danilo Fernandes, além de aceitar o banco e as críticas, foi fundamental para a ascenção de Danilo debaixo das traves – coisa que o atual goleiro do Internacional sempre ressalta. Quando Danilo saiu, Magrão volta a brilgar e agarra novamente o posto de salvador da pátria leonina – aos quarenta, repito.

Nota-se aí a essência de um ser humano com a alma do nordestino, mesmo que paulista de nascença. Magrão representa o que p nordeste é: excluído, subestimado, sem os holofotes que merecia ou teria no do eixo; mas essencial e talentoso para a sobrevivência de seu trabalho e quem depende dele, com a simplicidade que vem na aura permanente e irremovível de quem faz história por natureza.


Continua voando, Magrão! Voando pra salvar o Sport no último lance, na última cobrança, até você não aguentar mais jogar – o que ainda vai demorar. E quando esse dia chegar, continuará a ocupar o trono de líder e talvez do maior ídolo da história desse clube. E quem não te reconhece ou enaltece à altura, saiba que esses faltaram muitas aulas de geografia na escola para não saberem que, numa região tão excluída, há muita matéria prima a ser valorizada.

 

E essa história vai sempre se repetir. Afinal, foi necessário um craque como o Diego Souza, que construiu sua fama por ter sido protagonista no sudeste, ir para um clube nodestino e ser o primeiro jogador da região a vestir a amarelinha após dezesseis anos.

Aqui está um carioca que, como poucos por aqui, reconhece a tua grandeza – que só não ostenta tanto status por não ter sido construída do mesmo lugar de onde escrevo. E isso só a engrandece. 

Herói do nordeste, com o peso e sem a mídia de um herói nacional – como se o nordeste já não fosse uma nação; aí se vê o paradoxo que é ser um herói nordestino.

 

Abs, 

Daniel Braune

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