70 anos do Maraca: Mário Filho passa uma mensagem.

Suspeito que se o Maracanã for posto abaixo um dia, o futebol morre fibra a fibra. Como se as veias deixassem de ter sangue correndo para todos os centros possíveis da pelota. É complicado dar parabéns de longe. Mesmo que não seja quem já foi.

A verdade é que o futebol adoeceria sem o Maracanã. Em todas as vezes que se fez ausente, o esporte esteve mais murcho.

Mesmo que um marco tão importante da tua existência se dê em um momento tão triste, opto por olhar para trás e sorrir. Hoje, tu podias servir de exemplo por tanto que já fez por nós, mas está a ponto de ser usado em prol de um surto de ganância a quem pouco se importa contigo.

Mas hoje eu prefiro lembrar do que você já fez pro quem te ama.

Em seus tempos de surgimento, o mundo era mais colorido mesmo transmitido em preto e branco. Didi, o folha seca, foi o primeiro a balançar o véu da noiva, um dos mais importantes fragmentos desse gigante coração. Um nome digníssimo a estrear esse altar. Se a primeira grande decisão daria seu primeiro apelido melancólico com sotaque castelhano, a sequência de sua trajetória não tinha como ser mais carioca e brasileira.

Um marasmo que só poderia ser retirado por alguém de outro plano. Um ser que não se soubesse nem quando nasceu. Um anjo. Em que as pernas tortas descobrissem novo caminhos para bombear o sangue daquele lugar. Mané Garrincha foi talvez o maior extraterrestre presente no grande palco antropólogo humano do futebol. Embora um Rei da sociedade tenha conquistado muito por ali, mesmo sendo de outro lugar. De branco ou amarelo, Pelé também fez o Maraca mais Brasil.

Perdoem-me se eu esquecer algum gênio. Ou de algum conjunto deles. São muitos escultores dessa grande obra de arte que foi muito além da sua inauguração. Do esquadrão alvinegro em 60 deixado de legado à máquina tricolor na década seguinte, ao conjunto vascaíno de 74; até mesmo do Bangú de 66 e da seleção brasileira, em sua primeira grande festa no templo sagrado: classificação heroica de um descreditado Brasil, embora recheado de craques, agora sob comando de João Saldanha: alguém avesso aos tempos em questão, que saíra das cabines para sintonizar o time rumo ao México em 70.

Aliás, se tivemos craques na bola, nos microfones que entonavam as mais famosas vozes do estádio, que ecoavam nos milhares de radinhos dos geraldinos, os mais geniais comunicadores foram eternizados: salve Jorge Cury, Sandro Moreyra, Armando Nogueira, Waldir Amaral.

Passaria o tempo, e a soberania rubro-negra dos anos 80 começaria por um desbravador que vinha de Quintino. Um galinho faria o Urubu voar mais alto que nunca durante longos anos, e seria o maior arrematador.

Garrincha, Zico, Rivelino, Dinamite. Verdadeiros embaixadores de cada bandeira carioca no grande coliseu. Mas o que mais valia para explodir aquele imenso coração era o balançar daquelas redes que estufavam como nenhuma no planeta. Missão concedida de maneira divina a Fio Maravilha, de canela, Maurício, de chapa, Renato, de barriga, Dinamite, em que o nome e o futebol ajudavam, de voleio; Edmundo e Romário, de todas as formas; Túlio, idem.

Petkovic quase que com as mãos; Loco Abreu cavando, Adriano imperando, Fred espalhando corações em meio ao maior de todos eles… esse é o Marcanã de todos. De cada um de nós.

Não só com nossos times de coração. O Rio parava para ver Garrincha. Houve quem se tornasse alvinegro após vê-lo passar. Ou até mesmo um Zico da vida, rubro-negro que, ao mesmo tempo que se aterrorizava com os dribles de Mané contra seu time, o admirava. Mal sabia que, logo mais, alguns torcedores rivais fariam o mesmo, o vendo jogar de preto e vermelho. Um de seus admiradores: o cruzmaltino Romário.

Sentimentos que se misturam. Só o Maraca tem o poder de tornar dois antagonismos em sinônimos.

Do primeiro gol de um gênio, à época tricolor, que viria a se tornar ídolo botafoguense; o primeiro título foi vascaíno; o primeiro título nacional, do Botafogo; o internacional, também. O Fla foi o que mais levantou taças.

Por mais que alguns tenham mais familiaridade, outros tenham rumado novos caminhos e lares, o Maraca não só é coração por biologia pura. Não apenas programa toda a vida do futebol, mas pode ser chamado também de coração de mãe: todos cabem ali. Mesmo que de forma reduzida em relação ao passado; mesmo que algumas mudanças na arrumação tenham sido um pouco complicadas; saudosista no não, talvez sinta-se falta de como era antes. Mas, de fato, não dá pra deixar de amar.

Quando completa 70 anos, o templo está em silêncio. Gritos não ecoarão nas paredes. Sem cantos não formam o coletivo rugido das arquibancadas; sem véu, sem microfones. Hoje, esse pulmão para gritar talvez nos falte em tempos virais e letais. Tampouco para quem está a poucos metros de distância do Maior do Mundo, em um hospital de campanha. Em área de alta contaminação, quem detém o poder e precisa da grana colocará à bola pra rolar em um momento que a nossa casa poderia servir ao que de essencial se tem hoje. Sei que, no fundo, você nos transmite uma mensagem. Sempre nos comunicamos. A retomada do futebol no pico de uma pandemia em seus aposentos septuagésimo parabéns é a prova disso. Suspeito que esse seja um recado de Mário Filho.

Sinta-se, de longe, abraçado. Da forma que você abraça, silenciosamente, o nosso grande patrimônio há 7 décadas – e só falta mesmo falar. Poucas coisas no mundo se comunicam também com o torcedor e seus mais profundos sentimentos que o Jornalista Mário Filho. Se sua personalidade e sua forma de se expressar se entrelaçou às entranhas do estádio, não sei. Mas não duvido mesmo. Sei que a sua ideia de construí-lo no coração do Rio de Janeiro foi a grande semente desse templo. Se o Brasil tem a Amazônia como o pulmão do mundo, também tem a sua fotossíntese vital do futebol em São Sebastião do Rio de Janeiro. Para todos nós.

Hoje, esse pulmão talvez nos falte em tempos virais e letais. Tampouco para quem está a poucos metros de distância do Maior do Mundo, em um hospital de campanha. Em área de alta contaminação, quem detém o poder e precisa da grana colocará à bola pra rolar em um momento que a nossa casa poderia servir ao que de essencial se tem hoje. Sei que, no fundo, você nos transmite uma mensagem. Sempre nos comunicamos. A retomada do futebol no pico de uma pandemia em seus aposentos septuagésimo parabéns é a prova disso. 

O Marca é NOSSO. No mais amplo sentido da palavra. Até o infinito onde esse coração bombeia em ti o sentimento que tu tens pelo futebol – e pela vida.

Daniel Braune

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