“O Flamengo será uma máquina daqui dez anos. Se tem dinheiro, tem tudo”.

Quando disse que o discurso em relação ao Fla devia ser mais cauteloso, fui acusado de dizer isso por ser botafoguense. 

Talvez seja por isso mesmo. Sou botafoguense. Logo, muito cauteloso antes de fazer qualquer tipo de afirmativa a longo prazo. Em dez anos, MUITA coisa acontece. Em dois, também.

Em 2015, o Flamengo fazia seu primeiro investimento de peso no elenco. Paolo Guerrero chegava ao Rio para assinar um contrato de três anos, que custaria aproximadamente 41 milhões de reais ao clube em salários no total. A empolgação era imensa. A oposição não existia mais. Nas últimas eleições, Bandeira já sabia que venceria de novo. O próprio Márcio Braga votou nele. Afinal, “com dinheiro, pode tudo”. 

É fato que nos videogames o mais poderoso sempre vence. O time que tem mais players de setinha pra cima, o que tem atacantes com força e velocidade 95, ou o cara que faz macete pra ter 100 milhões pra gastar no brasfoot. Acorda. Na vida real não tem isso.

O esporte é repleto de paradigmas e circunstâncias que pode virar jogos e vidas de hora em hora – ainda mais o futebol. Não á toa é conhecido como “o único esporte em que o mais fraco vence o mais forte”. 

Ainda mais no Brasil. Se você promete o longo prazo como meta, não se pode viver de futuro sempre. O tempo verbal tem que mudar. E rápido.

Em 2015, o Flamengo passou em branco em uma temporada apática do novo camisa 9 do clube. Veio 2016. Junto com a virada do ano, com o passar do tempo, chegaram Arão, Diego, um treinador jovem. Ficou no cheirinho – que prometia continuar na temporada seguinte, de acordo com os telões do Maracanã na última rodada do campeonato. 

Com muito dinheiro, o Fla confiou na empolgação e esqueceu de administrar os detalhes que o futebol mais pune se não forem acertados. Por uma penca de dinheiro, trouxe Conca e um estádio novo, que sequer foram usados na Libertadores. O goleiro, a zaga e os volantes que se eram necessários, não vieram. A Libertadores também não. 

Pra compensar? Usa mais dinheiro. Traz o Everton Ribeiro e o Diego Alves, melhor goleiro do mundo. Já era tarde. Não podiam mais ser inscritos na Copa do Brasil.

Mas não tinha ninguém no Departamento de Futebol para ver isso? Talvez tivesse se existisse um. Quando Godinho foi pego na Lava-jato, Bandeira acreditou que seu próprio dinheiro poderia ocupara a cadeira vazia. Mas dinheiro não fala. Se não tiver quem o mexa, ele fica ali parado até apodrecer.

E é esse mau-cheiro que atrai os ratos. O cheirinho acabou se tornando incômodo demais. Entortou o nariz até dos mortos: Márcio Braga foi ressuscitado. Sumido há muito tempo, voltou a ser visto espiando a Gávea do outro lado da rua. 

Se a falta de dinheiro fez com que Eurico sentisse falta do cheiro, o excesso de odor das cédulas atraiu o ex-chefão. A oposição já marca reuniões. A união para tirar o Flamengo dos trilhos da boa administração financeira pode acontecer pela administração do futebol – que simplesmente não aconteceu.

O discurso do “Flamengo raiz”, que devia mas ganhava, volta a ganhar força como nunca. Tudo por culpa do próprio Bandeira de Mello, seus ingressos caros, seu sócio-torcedor elitista e lookies Adidas a R$ 500,00, que em nada têm a ver com Flamengo. Dos craques de cabelinho liso, bonitinhos e disciplinados, reversos aos os recentes heróis desengonçados  do século XXI no Flamengo – que não amarelavam na hora decisiva. Na malandragem, sempre dava Flamengo. O flamenguista esquece moral, ética e civilidade quando perguntado se prefere o Imperador Adriano ou o pai de família Diego. 

Toda a sua europeização que transformou o time do povo da cidade mais “povão” do mundo, no clube mais fresco e classe A do Brasil. Mascotinhos e campanhas fofas de marketing acabaram se tornando mais hilárias que o Porta dos Fundos – por coincidência ou não.

Sim, um futuro estava traçado. Mas só ficou no futuro. O tempo passou e o presente não chegou. O relógio na Gávea está perdido. Desesperado, pode acabar sendo ludibriado a recorrer a um passado muito sombrio, em busca de um futuro que não veio. O excesso de “corretismo” pode voltar a se tornar desordem e retornar à estaca zero. Da mesma forma que, quando você passa a última foto no celular, ela volta para a primeira de todas.

O filme de São Januário pode ser espelhado na Gávea. O endinheirado que nada venceu despertou o homem que gritou que “acabou o dinheiro” justamente no ano em que o Flamengo conquistou o Brasil.

Eduardo acordou Márcio Braga. 

 

Daniel Braune

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