Marielle subiu, a bênção a Vinicius desceu – o dia em que a favela gritou alto

Favela! (por Lucas e Daniel)

Tá aí um lugar que viveu momentos simbólicos diferentes nesse 14 de março de 2018.

Vou começar pela ordem cronológica dos acontecimentos: por volta de 21h30, a gente perdeu uma voz, ou melhor, nos tiraram. Me incluo porque eu sou favela, nasci e fui criado nesse ambiente e tenho um orgulho danado disso. Marielle Franco era nossa voz, e isso não sou apenas eu quem falo, ela não foi a 5° vereadora mais votada do Rio à toa.

Não quero ficar supondo quem é o responsável por colocar a mão na nossa boca e impedir que saia qualquer barulho que seja objeto de mobilização popular. Tudo é muito mais complexo do que aparece na mídia. Saber de tudo isso dói, mais aterrorizante ainda é viver…

Marielle era mulher, negra, cria da favela e, diferente da maioria das pessoas de lá, ela tinha voz. Os tiros que levaram a vida da dela ecoaram e chegaram aos nossos ouvidos com um recado nítido: “vocês não vão chegar lá”. A preocupação para que a gente não saia do lugar imposto pelo sistema é clara.

Só que aí vem o outro momento da noite. É jogo do Flamengo. E a favela para. A favela reflete o vermelho e preto. Não que ser flamenguista seja pré-requisito para ser favelado, mas o vice-versa é real. Grande parte da maior torcida de futebol do Brasil tem uma ligação imensa com esse lugar tão paradoxal que estamos falando.

A torcida do Flamengo é o seu povo, mas o time não. O valor da folha salarial da equipe e a elitização que tanto nos têm afastado da nossa maior paixão, que nos fazia esquecer dos problemas do morador de favela por duas horinhas a cada duas vezes por semana, vem se afastando.

No Equador, o Fla foi superior ao Emelec durante a maior parte do jogo, mas o descuido de uma equipe que não se comporta como Flamengo a fazia fracassar – mais uma vez. Faltava alguma coisa. Faltava uma solução que o dinheiro não estava conseguindo proporcionar.

No segundo tempo, o time tomou um gol que jogou um balde de água fria nos flamenguistas, e deixou mais difícil a vida de quem estava vivendo aquela situação. Aí o Carpegiani sacou, do banco, o estereótipo da favela, em um dia mais que simbólico e ideal para tal. Vou repetir: A SOLUÇÃO PARA O PROBLEMA ERA FRUTO DA FAVELA. O moleque negro de 17 anos, nascido em São Gonçalo, entrou em cena e fez o Flamengo mudar de um garotinho mimado do Leblon a um pivete atrevido da Maré de Marielle.

Dois GOLAÇOS, dignos de viela de morro, num jogo importantíssimo, em que o nervosismo só não abalava quem já acordou pronto para a guerra, perdendo de quatro a zero e com metade do jogo já tendo passado; é essa a vida do favelado. A minha, a de Vinicius, e a de todos os rubro-negros que depositavam, no Fla, um motivo para sorrir em uma noite tão catastrófica até o momento. No futebol, a favela foi solução mais uma vez. E quando descriminados, apedrejados – até por óculos – fazemos deboche. É assim o nosso jeito.

Mas o que a maioria não sabe é que os talentos de lá não estão apenas no mundo do futebol, estão em todos os aspectos da sociedade. E você deve estar me achando maluco por colocar esses dois fatos na mesma linha de raciocínio, e talvez eu seja mesmo, mas o fato é que “eles” perceberam onde está o início da solução, o que desanima é saber que a gente ainda não percebeu.

E quando a gente entender que a favela tem muito mais a oferecer do que “tirar”, que o diferente agrega mais que o destruidor e, principalmente que o povo é mais forte do que imaginam, aí sim as coisas começar a mudar. Aí sim tudo que Marielle fizera em seus quase 40 anos de vida – e o que Vinicius fez até os 40 do segundo tempo. O dia 14 de março deixa um recado.

Que a luta da Marielle tenha se fortificado com a exibição de jogador de futebol vindo do nosso submundo desigual, num esporte que tanto representa o pobre. Que não desanimemos e continuemos descobrindo o verdadeiro Brasil retirando os panos que cobrem a realidade. Como já falei aqui, tudo é muito mais complexo do que aparece na mídia. Deus dá ao esporte o poder de dar esperanças e rumar caminhos dados como sem volta.

Os quatro tiros que arrancaram tristemente a vida da nossa guerreira são virtudes de todo o amor que ela plantou a seu povo, e que tanto envenenava o mal. Marielle já chegou lá em cima pedindo para que abençoassem o seu Flamengo, a sua favela, o menino da favela no seu Flamengo. Nada é por acaso.

E que o Flamengo capte, de uma vez por todas, esse recado. Favela e Flamengo sempre devem caminhar lado a lado. Marielle já subiu ponderando isso. A justiça – lá de cima – nunca falha.

Nunca nos proibirão de sonhar. A bala disparada, mais uns quatro gols do Vinícius, o “Negueba” que mais incomoda a quem desgosta, e que ainda representará muito a favela mundo à fora; mais dez Marielles descendo o morro, em defesa de novos Vinicius que estarão por vir.

E continue lutando pela tua gente, Marielle! Bem aí ao lado do moço pra quem rezamos todo dia.

Abs,
Lucas Evangelista e Daniel Braune

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