Nada faz sentido. Ninguém entende.

Geralmente escrevo textos motivacionais nesses momentos de tensão, quando a importância de um jogo transcende aspectos teóricos e até temporais. Ponho o computador à minha frente pra ver se sai algo… e me parece tudo muito repetitivo. A atmosfera, o semblante dos personagens, as situações, datas… até mesmo adversários.

Há exatamente um ano, me lembro que eu esbravejava após uma derrota para o time B do Atlético (sem H, até então) na Arena da Baixada. Era notório um desânimo dos atletas com um descaso da diretoria ao não passá-los notícias sobre salários, a raiva da torcida por Gatito e Jefferson lesionados há meses, a degola se aproximando. 

2017: o próprio Cruzeiro era o adversário quando escrevi um texto que antecedia a última rodada do brasileiro. O Botafogo havia desperdiçado todas as chances mais fáceis de garantir vaga na pré-Libertadores e se via obrigado a vencer o time mineiro na última rodada. Após uma eliminação para o maior rival na Copa do Brasil e a frustração de um sonho na Libertadores, era difícil tirar forças pra motivar qualquer movimento naquele segundo semestre.

Fica a pergunta ao tentar motivar a mim mesmo e a mais pessoas: qual o sentido disso? Que lógica faz incentivarmos a sobrevivência se veremos o risco de vida bater à nossa porta algumas estações depois? Por que se desgastar para nos fazer crer que, saindo do sofá neste fim de ano, no ano que vem, será diferente? Por que sempre o discurso é em prol da camisa, nunca vendo uma expectativa de retorno a todo o nosso amor?

Acho, de verdade, que nada faz sentido. Nunca fez. Desde o princípio. Basta ver as letras das canções da nossa torcida. São pouquíssimas a exaltar aquilo que queremos, exigimos ou merecemos em troca de uma devoção. Essa é alçada em uma via de mão única, de maneira uniforme, na intensidade de um fogo no peito que nunca vai se apagar.

De que, quando esse clube joga, não importa nada. Absolutamente nada. Foda-se o Mufarrej, o CEP, os abutres de General, os anos de desilusão, a realidade escancarada à nossa frente de que aquilo que vivemos há décadas não condiz com o que merecemos. O jogo contra o CSA evidenciou tudo isso. Não havia NADA que nos fizesse cantar naquele momento em que o time alagoano empatava. Cantávamos contra nossa própria vontade racional. A favor, somente do nosso amor. Que realmente ninguém cala. Minutos depois, um gol espírita.

Nada disso aqui faz sentido. Eu poderia apelar para o discurso de que, apoiando até o final deste ano, tudo seria diferente no ano que vem. Mas a gente sabe que, por mais que tudo caminhe para um divisor de águas na nossa história, não é assim que funciona conosco. Tanto falamos em apoio por uma mudança, mas déjà vús são ininterruptos. Assim como a devoção. Nada faz sentido. E é a isso que eu prefiro me apegar.

Afinal, que sentido lógico você vê quando suas esperanças aumentam sempre que você olha pra cima e vê a estrela solitária a brilhar no céu? E é claro que não há quem tente explicar. Esse sentimento ninguém entende. E eu peço mesmo para que você não tente compreender o que te faz sair de casa e gritar por isso tudo nesse panorama desastroso. Pense indo. Pense vivendo. Tente entender fazendo acontecer.

Já foram seis pontos conquistados pela torcida nos últimos dois jogos em casa. Faltam seis jogos. O mais importante deles, nesta quinta-feira. Três pontos a mais diante do primeiro da zona – e mais forte dentre os concorrentes – seria a abertura de um portão  que nos levará até 2020. O mesmo que nos levou contra o São Paulo em 2009; contra o Corinthians, no ano passado. Conquistado pelo mesmo povo. Na mesma situação. Com a mesma estrela no peito. A mesma no céu a guiá-los. Algo que, por menos sentido que faça, é o nosso imenso prazer.

Te espero para não entende nada mais uma vez. Afinal, nada faz sentido. Ninguém entende. 

Daniel Braune

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