Ninguém ama como a gente.

Certamente você já esteve em uma situação de consolar um amigo em um momento de tristeza. Lágrimas, frustração, desespero, desânimo. Em que quase nada o conforta. Qualquer palavra, argumento ou incentivo podem entrar em um ouvido, sair pelo outro, como meros clichês. Que vão se tornando rotineiros a cada momento de tristeza. 

E se tratando de futebol? Nada conforta o time que decepcionou mais uma vez. Se tratando de Botafogo… ninguém é como a gente.

Sofremos mais do que todo mundo, pelo menos nos últimos 20 anos. Desde o início do século, talvez ninguém tenha colecionado tantas frustrações das mais absurdas e inimagináveis que o Botafogo. Por consequência… ninguém é mais calejado, maltratado, angustiado, desconfiado… enfim. Ninguém sofre como a gente.

E depois de uma coleção vasta de sofrimentos e amarguras, o momento de alívio em um próspero futuro melhor está à vista. Mas vem sendo embaçado por uma turbulência que pode ser absolutamente fatal. Enxergando tempos em que a realidade condiga com a grandeza e a tradição do Botafogo, o torcedor vê toda a angústia daquelas coisas que só acontecem com o Botafogo baterem à porta em peso. Como se toda a assombração tivesse se fundido e criado uma verdadeira catástrofe! Clube falido, dirigentes estragando tudo e pulando fora do barco, treinador perdido, jogadores limitados, salários atrasados…

Acontece que, de fato, há coisas que só acontecem ao Botafogo. Mas essa frase tem muitas vertentes.

Que tipo de torcida resistiria ao time nessa situação, rotineira e recorrente há décadas? Que tipo de torcedor vê outro irmão de camisa na rua, e bate no peito com orgulho mesmo com uma realidade desanimadora nos gramados? Quem é o louco que vai aos jogos sabendo que o fim pode ser de melancolia por mais uma vez? Que torcida tira forças pra gritar contra a própria vontade? Tal como o companheiro que segura à sua mão nos que podem ser os instantes finais de sua vida? Crendo na sua recuperação?

A verdade é que ninguém se fode como a gente. E é justamente por isso, que ninguém ama como a gente. Ninguém tem fé como a gente. Ninguém crê tanto no inimaginável como a gente. Ninguém banca tanto de pessimista durante a semana inteira com os amigos; pra dias depois resolver comprar o ingresso; pra horas antes do jogo decisivo se tornar outra pessoa no discurso que adotara no início? Há meses há mesma coisa. Anos. Décadas. Gerações.

Talvez por isso sejamos tão desconexos com o mundo. A ponto de achar que influenciamos quando trocamos a camisa que fomos no último jogo em que perdemos vendo do estádio; que trocar de lugar no intervalo vai dar azar; que gritar “gol” antes da finalização é zica na certa! Por que tanta loucura? Tanta crença no inacreditável, por mais céticos que sejamos? Porque, de fato, a gente pesa. Unidos, olhamos uns nos olhos dos outros, por maiores que sejam as desavenças e discordâncias, por mais parecidas que sejam as amarguras… e percebemos que ninguém sofre quanto a gente. Ninguém luta como a gente. Ninguém resiste como a gente. Ninguém vai de peito aberto pro impossível como a gente…

há quem diga que desiste. Que não acompanha mais… mas como seria possível se desgarrar da minha própria vida? Como apagar o fogo no meu peito e mergulhar na escuridão? Como não seguir o facho de luz? Como não estar com você? Pondo alma e coração? Te abandonar na pior?

É pensando em cada verso pra ver tudo que você me proporcionou. Amizades, histórias, legado, alma calejada. Coisas que vou ter que contar e repetir pra quem não viveu comigo no futuro… ninguém nunca vai calar. Muito menos agora, quando você precisa da minha voz nos instantes finais do ano que define o fim – ou o recomeço disso tudo. Mas antes da Sociedade Anônima, é um povo inteiro, bem conhecido por sua perseverança, que carregará o Botafogo à linha de chegada.

Talvez você me mande calar a boca. Diga que nada disso adianta. Que nunca adiantou. Eu posso não discordar. Mas minha lucidez nunca foi parâmetro. Só a nossa loucura. O nosso inexplicável imenso prazer.

Esse é o sentido disso tudo. Só a gente aguenta. Só a gente sustenta.

Porque ninguém, absolutamente ninguém, ama como a gente.

Daniel Braune

Deixe uma resposta

Fechar Menu