O aniversário no dia da herança, na semana do sinônimo.

É difícil não ser clichê contigo. Eu já te repeti isso algumas vezes. Em diferentes épocas, contextos, idades, maturidade – ou falta dela. Vou evitar lembrar o bilhete do Flávio na aula de matemática, a sua avó que eternizou teu nome, os primeiros anos que já começaram em drama – e até em morte de poeta e jogador campeão com bala alojada. 

O clichê que preenchia meus cadernos da escola, os antigos Orkut e MSN, o já passado Facebook, o eco que voltava para mim com ironias em forma de pedra. O quanto eu ouvi que meu amor era vago. Afinal, não havia coincidência. Não havia pessoas que me ligassem a você. Nem proximidade. Não havia sequer quem me pudesse me ligar a ti através de palavras. E mesmo assim alguém cala? Nem os mais odiosos comentários. Talvez eles tenham me estimulado. A fazer de cada parabéns uma meta. Um progresso. As vozes eram tantas a desmerecer que formaram uma bola de fogo. Capaz de aumentar o que nunca iria se apagar.

O meu escrever virou falar. A minha fala virou ação. Indireta ou direta. Não cabe a mim interpretar. Ações que me fazem crer que estou sim mais ligado a você. Em um mundo a cada dia mais 3D, HD, enxergo cada vez mais embaçado. Preto, branco, resto cinza em forma de um nevoeiro que me faz ficar na única estrela que brilha aos meus olhares voltados pro céu.

O Botafogo é a aleatoriedade de unir contextos. Vide um deficiente físico descendente de índios vindo das matas de Magé para mudar os rumos do maior esporte do planeta. Ou até mesmo o mais renomado formando em advocacia, que se tornaria o Rei do Rio de Janeiro nas décadas de 40 por quebrar regras.

Pela relação com seu público que não sabe porque te ama. Não, não é sobre a estúpida falácia de que não vencemos. Sempre fomos muito acostumados a vencer, embora os falsos valores atuais digam que não. Mas porque não somos fascinados por aquilo que torcedores comuns geralmente são. Pouco importaram as taças levantadas em Paris, na Hungria, na Venezuela, contra os maiores adversários do mundo – depois de nós. Não necessariamente por termos sido a base do que é hoje a maior seleção de futebol da história. Isso é legal. Mas é concreto demais.

O botafoguense é como o Botafogo: ninguém entende. É o abstrato, a poesia, o futebol em prosa, o baile em versos, o gingado de Garrincha em orquestra, a folha seca de Didi em câmera lenta, o avançar de Nilton Santos como revolução mundial. Se outros se baseiam no que veem, nós somos o que sentimos. A gente não precisa ler o livro pra saber que somos os capítulos. A crônica futebolística tá na alma do botafoguense. Eternizada com a sutileza de Armando Nogueira, ou a rispidez de João Saldanha. Oito ou oitenta em história e poesia.

Eu não quero te dar parabéns. Eu quero dizer obrigado. Irônico né? Tanto sofrimento e agradecimento em paralelo, quando se espera o discurso em paradoxo. Mas fica tranquilo. Eu sei diferir o que você é daquilo que fizeram contigo. Você tá longe de ser quem me faz mal. Você formou a minha vida. Como gratidão, é meu dever tentar te proteger daqueles que te maltratam. Através de todas as vertentes. Ou ao menos tentar.

Eu te amo, minha vida, meu amor, meu amigo, minha guia, meu caminho, meu signo, minha personalidade, meu destino, o desenho que Deus projetou a lápis, sem borracha para apagar ou separar.

114 anos de futebol. Na semana do dia do sinônimo do clube: O BOTAFOGUENSE. No dia dos pais, com a herança do mais incomum e místico pai do mundo, que me dera o dom da loucura poética, da paixão, da cultura e do preto e branco.

Obrigado, Botafogo. Obrigado, Gustavo Braune. Obrigado também, vovô! A gente não se conheceu. Foi você quem passou tudo isso ao meu pai. Espero que esteja vendo o que causou.

Agradeço aos botafoguenses que leram. São vocês os meus irmãos, o meu sinônimo, os amigos que o Botafogo me deu, os amores que a vida desenhou em preto e branco para mim.

Aos não botafoguenses, peço desculpas. A língua é outra, vocês não devem ter entendido. Quando eu aprender a decifrar a tradução, eu juro que explico.

Daniel Braune

 

IMAGEM DESTACADA: Beatriz Ramos

Este post tem 2 comentários

  1. Que orgulho saber que temos um botafoguense tão gênio como você. Que definição maravilhosa do nosso Glorioso.Exatamente verdadeira sem tirar nem por.. Meu pai era era botafoguense, meus irmãos (3) são botafoguenses, minha filha é botafoguense e meu neto, Pedro de 10 anos é botafoguense roxo..como você pode ver fica difícil calcular quantas toneladas de amor ao Botafogo têm na minha família. Seu texto me apaixonou ainda mais. E agora mais do que nunca fica a certeza de que nós botafoguenses nascemos sob a forma de uma ESTRELA. É uma pena, mas quem não torce pelo nosso Botafogo não entende isto. Muito obrigada pelo texto, muito obrigada por você ser botafoguense. Vou falar de você com meu neto. Tenho certeza que ele irá gostar muito de saber que existe um torcedor do Botafogo como você. Obrigada. Gildete .

  2. Braune, que texto maravilhoso, estou muito emocionada (chorando) com suas palavras e me identifico com tudo o que escreveu. É desse jeito meu querido (me perdoe, pq não te conheço pessoalmente, mas vc é querido por muita gente) o meu sentimento pelo Botafogo!! O último parágrafo diz tudo, pois a nossa língua é diferente e não tem como traduzir, a não ser pelo coração. Quem não é botafoguense, nunca vai compreender (e até acho bom rs). A nossa linguagem é única e isso nos diferencia do resto. Não somos a maioria e nunca quisemos, nem queremos ser. Parabéns amado Glorioso e obrigada por existir! Obrigada por vc e outros como vc exaltarem meu Botafogo!! Amor pra vida inteira! Deus te abençoe! Bjs

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