O brasileiro e sua memória fraca – de “apagado” a “maior da história” ?

Claro que faço parte dessa crítica, mas me incomoda o quão espalhafatoso e dramático é o brasileiro em certos momentos.

Real Madrid e Barcelona jogaram ontem uma partida decisiva do campeonato espanhol. Neymar, candidato a bola de ouro, suspenso por uma punição um tanto exagerada, não jogou. Cristiano, outro candidato que vem decidindo seguidamente jogos na liga dos campeões, era um dos protagonistas. Messi era o outro.

Há meses sumido, Messi já não tinha mais o nome tão lembrado quanto antes nas rodinhas que tentavam carimbar um melhor jogador do mundo ao fim do ano. Falava-se em Cristiano, com Neymar correndo por fora. A apagada temporada de Messi até então, tanto na seleção quanto no Barcelona, o distanciavam de um sexto título.

Engraçado como a cabeça do brasileiro muda em questão de minutos – eu diria noventa.

O Real vencia por um a zero quando Messi marca um belíssimo gol e empata a partida. Já ecoavam os gritos na internet: "GOLAÇO! GÊNIO! ET! MELHOR DO MUNDO! ET!"
Estranhei. Mas decidi ficar quieto. Não era um gol de placa, mas foi um puta gol. O ET andava sumido em missões intergaláticas, sequer apareceu pra jogar contra a Juve… mas tem crédito. Melhor respeitar.

No segundo tempo, o croata Rakitic marcou UM GOLAÇO de fora da área, uma verdadeira escovada na bola com a parte interna do pé esquerdo , como manda o manual: nem um terço da reverência ao gol que Messi havia feito.

Aos noventa, gol do Barcelona. Messi decide em casa e é estupendo, decisivo, fantástico, indiscutivelmente um monstro e um verdadeiro carrasco do maior rival. 

Eis que surgem os exageros que me sobem o sangue à cabeça mais como se tivessem me ofendido: "MESSI MELHOR DA HISTÓRIA. CURVEM-SE! QUE GOLAÇO! REI! ME COME!"

Todo brasileiro deveria ser ator. Ainda mais quando se trata de reverenciar estrangeiro. 

O gol que Messi faz de uma bola rolada para a entrada da área torna o gol digno de Puskas só por ser de Messi; uma única atuação de gala (e que atuação, convenhamos) serve para apagar uma temporada pífia e uma falta de brilho sem tamanho na liga dos campeões, além de firmá-lo como o "maior de todos os tempos", simplesmente pela grandeza de seu nome – mesmo que por méritos próprios.

Fico imaginando se fosse o Sergi Roberto metendo aquele gol. Aliás, indiretamente, foi… que arrancada foi aquela! E sequer foi lembrada.

O lado emocional do brasileiro cega sua visão crítica e seu bom senso para analisar o que está ao seu redor. 

Em 2017, é lançado o manual do que é necessário para ser considerado o melhor jogador da história do futebol: marcar um belo gol e decidir UMA partida contra o rival no fim.
Feito isso, você está isento de qualquer atuação pífia na liga dos campeões, ou todas as atuações apáticas ou vexames com a seleção nacional – que inclusive corre o risco de ficar de fora da próxima Copa do Mundo.

"Conte ao seu pai que você viu Messi, o maior jogador da história do futebol".
Se conto isso pro meu pai, meu amigo, ou eu morro de tanto apanhar em desrespeito ao passado sagrado do esporte da bola, ou mato meu pai de falta de ar de tanto que ele vai rir.

"Ah mas não vi Pelé jogar". Viu Ronaldo, Romário, R10 e Zidane. E se não viu não compare.
"Futebol antigamente era outra coisa". Justamente. Não se compara épocas. Ainda mais na época onde tudo era mais difícil e não se tinha as regalias de hoje.
"Messi não tem copa? Azar da copa!". Essa eu me recuso a responder e faço questão de ofender a quem a decifra. Azar mesmo é do torcedor argentino, que nunca viu o "maior da história" dar sequer um torneio de várzea ao seu povo.

Brasileiro: menos, bem menos. Me admira você e toda essa reverência regada de exagero, no país onde nasceu, tendo visto tudo que viu no passado, vê no presente e verá no futuro – mas não adianta. No Brasil, a grama – ou o ET- do vizinho é sempre mais verde.

Daniel O. Braune

 

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