O Impossível Adeus a Totti 

Afinal, o que é ter ambição?
O significado dessa palavra oscila com o passar do tempo. Tuas convicções mudam, teu modo de viver te leva a um caminho ao qual você sequer esperava antes. E quando abre os olhos, nota estar num posto ao qual jamais se imaginava, e nele você se sustenta, se eterniza.
O que almejava Francesco Totti?
Talvez não esperasse o tamanho que teve, uma vez que quase foi dispensado no início de sua trajetória na Roma. 

Aos poucos, suas asas iam ganhando forma; sua postura ia mudando. Nome, alma e corpo engrandeciam à forma e tempo em que Deus escrevia sua história lado a lado do clube que viria a se tornar lenda.
Provavelmente Totti se via perfilando pelos maiores estádios do planeta, repleto de patrocinadores, fortuna, fama e prestígio mundial, no topo do mundo.

Talvez esperasse seu prestígio de outra forma. Todo vestido de branco perfilando pelo Santiago Bernabéu; reinando na Premier League pelo United; e por que não vestindo a tão desejada 10 do Barcelona? 
Mas os anos passavam e, dentro do local onde Totti foi criado, ele não sentiria a necessidade de sair. Via naquela pista do Estádio Olímpico todas as voltas que poderia dar, tanto nas conquistas em sua carreira quanto na vida. 

Assim, Totti sempre permanecia ano a ano.

O mundo girava, nada dele partir e o pequeno Francesco ganhava forma e aos poucos engrandecia-se. A 20 virava 10, o peitoral estufava, e os braços franzinos debaixo das longas mangas do uniforme iam ganhando forma e medida exata para o perfeito encaixe da faixa de um eterno capitão.
O destino o fez abdicar de qualquer reinado; a vida o dava a divindade. 

De 92 a 2017, Dos 16 aos 41. 25 anos de Roma, mais da metade de sua vida. 786 jogos, 306 gols, milhões de apaixonados, inúmeras propostas rejeitadas, milhões em cifras ignorados. Uma lenda, um clube, um casamento – ou fusão. Totti e Roma, juntos, permaneciam singular.
Totti virou Roma, e vice-versa. Clube e jogador se uniram, mesclaram-se como em quase nenhum outro caso do planeta. É impossível pensar no vermelho e amarelo e não lembrar de Francesco. É impossível falar de Totti sem pensar no Estádio Olímpico nos mínimos detalhes.

O tempo e suas ações mudavam o panorama daquele lugar. Olhando de cima, as camisas grená nas arquibancadas, antes com gravuras de nomes e números aleatórios, passariam a formar um aglomerado dos números 1 e 0; as letras T tornavam-se destaques comuns às costas dos torcedores, similar à imagem.
Fenômenos como esse só acontecem com aqueles que alcançam o sucesso por vertentes diferentes. Grandeza não é necessariamente alcançar a fama, a admiração, o sucesso. É conquistar a soberania por naturalidade.
É servir de inspiração para a alma, não para o corpo. É ser referência emocional acima da técnica. É ser gigante para um povo por liderá-lo, não só por fazê-lo se impressionar. É dizer “fico” por 25 anos.
E seu adeus só o estatiza em tal posto. Seu choro na despedida demonstra sua humanidade pura por trás de qualquer superioridade que uma verdadeira lenda supostamente teria. Só teria. Poucas “lendas” são como Francesco Totti: o homem que alcançou a glória sem abandonar seu berço.
Deu pra ver que não é só na Grécia que tem mitologia. Afinal, Roma não tem Rei: tem Deus. E sua túnica sempre foi grená. Ambição alcançada.

Daniel O. Braune

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