Prezado povo povo brasileiro,

gostaria de dar o braço a torcer. Aquilo que vimos em 2014, de fato, não foi um acidente.

Talvez eu tenha interpretado dessa forma por não entender tanto do assunto, como os vários que tentaram, ao longo desses anos de crise na seleção brasileira, buscar as mais bizarras explicações para a eventual situação.
Disseram que não tínhamos mais bons jogadores, que o problema era a “falta de material humano” de uma “safra ruim”, como acontece de maneira recorrente, a exemplo da seleção holandesa atual.

No mesmo momento em que comentaristas e “especialistas” enchiam a boca para dizer que faltavam bons jogadores na seleção, Philipe Coutinho seguia substituindo o posto de ídolo deixado por Gerrard à altura; Neymar era terceiro maior jogador do mundo em apenas dois anos na Europa; Marcelo e Dani Alves, permaneciam soberanos nos cargos de maiores laterais do mundo, um de cada lado; Thiago Silva, mesmo em decadência, ainda era, no mínimo, um dos cinco maiores zagueiros do planeta; entre os volantes, Casemiro começava a crescer no gigante Real Madrid. Sem contar com William e Douglas Costas, os pontas que infernizavam respectivamente a Inglaterra e a Alemanha.
Mesmo sem entender nada – e nem era preciso – comecei a me dispor a refletir: com tanto brasileiro bom na Europa, essa é mesmo a geração ruim do Brasil?
O que me sanou a dúvida sobre o verdadeiro problema foi olhar para outras grandes seleções do futebol mundial. Até mesmo nelas há protagonismo vindo do nosso território. Diego Costa, Thiago Alcântara, Thiago Motta… além de regados, regávamos, também os outros, e ainda assim vivíamos uma crise interna. O problema estava mesmo dentro de campo?

Era 2015 ainda. Levantei da mesa da cozinha – a mesma que me apoiei para escrever a carta ao Scolari – atravessei a rua e entrei em uma livraria. Lá encontrei um livro de um jornalista da Escócia. “UM JOGO CADA VEZ MAIS SUJO”, em letras garrafais. No pé da capa, em letras claras: O livro que a FIFA tentou proibir. Comprei.
Nos primeiros capítulos, os protagonistas são dois dos mais poderosos cartolas brasileiros que faziam o que queriam, escondidos por anos atrás das regalias de FIFA e CBF. Juntos, os dois sugaram dos cofres que deveriam desenvolver as categorias de base e a estrutura do futebol brasileiro, cifras que ultrapassam dezenas de milhões de reais. Sem falar nas inúmeras trapalhadas… a suspeita de que Ronaldo teria entrado em campo na final de 1998 por ordem de uma fábrica de calçados e de patrocinadores, mesmo após ter sofrido uma convulsão, me fez pensar sobre a loucura que eu tinha feito ao escrever aquela carta, e a quem eu havia defendido naquele momento.

Por vinte anos, um senhor chamado Ricardo Teixeira presidiu a CBF sem que ninguém pudesse tirá-lo. Depois de um longo mandato, o ex-apoiador do regime militar, José Maria Marin, assumiu o poder, em meados de 2012. Nessa época, a seleção, comandada por Mano Menezes ganhava forma para a Copa de 2014. Mesmo assim, Marin demitiu o treinador um dia após a conquista de um título contra a Argentina, e anunciou seu substituto: Felipão.
De início achei legal, sempre gostei do Felipão, aquele papo de professor, paizão, família. Depois do 7×1, insisti em defende-lo. Com a volta de Dunga passei a refletir. Com tantos treinadores novos surgindo, logo o Dunga, que ficou dois anos parado, sem fazer nada? Para o ex-presidente Ricardo Teixeira, não fazia diferença. Ele mesmo, nos bastidores, já teria soltado a pérola: “treinador pode colocar qualquer um”.

Para ele, nada fazia diferença, como percebi na biografia que li do Alex de Souza, que comprei no fim de 2015. Nos jogos olímpicos de 2000, teve a audácia de colocar um bêbado para chefiar a delegação. Quando a seleção foi derrotada por Camarões, Teixeira e o tal chefe da delegação foram repreendê-los, e o meia Alex explodiu. Disse que o chefe da delegação vivia bêbado e nunca estava lá, só fazia figuração. Dois anos depois, o próprio Alex ficou de fora da seleção que conquistou o penta. Coincidência?
Tudo fazia sentido… o poder deles estava acima de todo. Me lembrei de mais algumas páginas que li do livro de Andrew Jennins. A CBF possuía diversos acordos firmados a respeito de vendas de jogos e direitos de convocação de jogadores. Dunga já conhecia as normas da casa. Um treinador novo, mesmo que mais bem preparado, talvez, se assustasse. O método era complexo. Não à toa, no início de 2015, Marin foi preso. O vice, Marco Polo Del Nero, sequer saía do país, temendo ser pego pelas autoridades do FBI. Foi aí que tudo começou a fazer sentido.

Além da cômica e trágica situação de se ter um presidente “foragido” na entidade máxima do nosso futebol, vinham as convocações e diversos jogadores que estremeciam os gramados na Europa eram ignorados. Método de jogo? Não havia. Dunga estava totalmente atrás até mesmo das filosofias de jogo dos piores adversários sul-americanos. Em um grupo com Peru, Haiti e Equador, a seleção foi eliminada de uma Copa América. Dunga estava fora.
Todas as críticas à minha carta batiam com aquilo que eu via na vida real e lia nas páginas do livro assombroso que revelava todos os podres dos cartolas brasileiros. Depois de tantos vexamos e o risco de ficar fora da Copa, era a hora de mudar. Ouviram até a voz do além e o nome era um só: Tite. Simplesmente fizeram o óbvio. Chamaram o homem.
Só na estreia, já deu jeito. Em quatro jogos, já era ídolo. Vieram Argentina e Uruguai, as mais fortes concorrentes – goleada nas duas. Atropelamento geral. Já era de se esperar. Os maiores jogadores do mundo jogam de amarelo, bastava alguém que os fizessem render. Os tempos realmente mudaram, e essa historinha de família Scolari não rola mais. Os resultados comprovam. Em 2014, quem ia acompanhar os treinos da seleção em Teresópolis na véspera de jogos importantes e não havia nada. Era só coletivo, rachão, risadas e fotos com fãs. O resultado foi o 7×1. Com Tite e todo o seu entendimento sobre um futebol totalmente novo, as nove vitórias em nove partidas não surpreendem. A organização é a palavra-chave.

Realmente. Não foi um acidente. O problema não é a safra, o material, o clima, ou a mãe diná, como alguns entendidos acabavam dizendo e, indiretamente, defendiam os cartolas que destroem nosso futebol; com o mínimo de ordem, conseguimos folgar no topo, e ser a primeira seleção classificada à Copa da Rússia, a qual os mesmos entendidos diziam que já estávamos fora. Se com o mínimo é assim, em organização máxima, talvez, a soberania do Brasil no futebol fosse como é a dos Estados Unidos no basquete: outro patamar.
Eu deveria ter lido aquele livro antes. Deveria ter notado quem está, há tanto tempo, por trás desse 7×1, que não surgiu no dia 8 de julho de 2014 – apenas foi apresentado nesta data. Esse monstro surgia desde os primeiros títulos da seleção brasileira.
E o que mais me deixa triste? Saber que, de certo modo, o bom trabalho do seu Adenor faz com que os verdadeiros culpados do 7×1 respirem aliviados. A estabilidade voltou ao reino dos crápulas.

Abs,

Dona Lúcia

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