O primeiro texto dedicado a um último suspiro – Deus o tenha, Bebeto

Com o site remodelado e com um espaço específico e personalizado para o portal Braunefogo, a  inauguração vem com uma homenagem justa, mas triste.

Coincidentemente, na última sexta-feira, fui à sede histórica do Botafogo com meu amigo e colega de profissão, Wellington Portela. Estreávamos seu novo projeto no YouTube, “Personagens”, que dá destaque às histórias de vida de desportistas do Brasil. O primeiro papo foi com Arnaldinho, jogador de basquete do Botafogo.

A entrevista aconteceu na sala de imprensa Armando Nogueira, e eu com um olho no celular que continha as perguntas, e o outro ligado no relógio. A preleção da comissão técnica da equipe de vôlei estava prestes a começar e nós, lá dentro, por ora, atrapalhávamos o treinamento analítico.

Ao terminarmos a entrevista, enquanto guardávamos os equipamentos, comecei a prestar atenção nas explicações do treinador e dos auxiliares para os atletas por alguns minutos. Juntamos tudo, e descemos as escadas envolvidas pelas paredes customizadas por imagens marcantes que formam a temporalidade desse clube tão grandioso.

E em uma das frestas, lá estava ele, cortando o levantamento do companheiro no Ginásio Oscar Zelaya: Bebeto de Freitas. E lá estava eu, como uma criança, babando em cada figura gravada nas paredes e degraus daquele clube, como se ainda fosse 2005, quando pisei lá pela primeira vez.

 

O primeiro post na aba alvinegra é dedicado ao nosso reinventor do vôlei nacional, que faleceu na tarde desta terça-feira após um infarto fulminante na Cidade do Galo, o Centro de Treinamento do Clube Atlético Mineiro. Diretor de Administração e Controle do clube, Bebeto participava de uma reunião da equipe de futebol americano do Atlético. O resgate de helicóptero feito pela ambulância foi rápido, mas o diretor não resistiu e faleceu cerca de 40 minutos após passar mal.

Por mais que minhas interpretações leigas da adolescência não me fizessem ser um fã assíduo, vejo hoje o quão fundamental Bebeto foi para o Botafogo, tanto em quadra, no meio do século passado, quanto no comando máximo da instituição. No voleibol, sagrou-se campeão carioca onze vezes seguidas, tricampeão brasileiro e campeão sul-americano. 

Uma pausa antes de chegar até 2003, quando Bebeto assumiu um Botafogo em terra arrasada, à beira da falência e do apequenamento total: após uma carreira imensurável, que o levou inclusive a disputar, pela seleção, os Jogos Olímpicos de 1976 em Montreal, o desportista não se tornaria apenas em um dos maiores treinadores da história do esporte. Bebeto foi o condutor de um Brasil que mal conhecia a bola de vôlei ao posto de Majestade do voleibol mundial.

Comandou a “Geração de Prata” nos Jogos de 84 e 88, e descobriu em um ex-judoca um certo talento no esporte da bola levantada para o alto. Não preciso nem dizer que Bebeto formara o maior treinador esportivo da história do Brasil. Fez o voleibol brasileiro, nas mãos de Bernardo e José Roberto, acelerar para nunca mais parar. O único cidadão capaz de frear a desgovernada camisa amarela nas quadras, inclusive, foi o próprio Bebeto, que derrotou a seleção brasileira em pleno Maracanãzinho em 1990, quando comandou a seleção italiana, fato muito bem lembrado pelo meu amigo e professor Soares Júnior, em seu blog pessoal.

No futebol, Bebeto foi diretor do Atlético Mineiro pela primeira vez em 1999, mas a partir do novo milênio, passou a ser mais ativo na política do seu clube de coração. Em 2003, Bebeto recebia, em suas mãos, um gigante à beira da morte, na segunda divisão e sem dinheiro sequer para comprar bolas e água potável para seus atletas. 

Recolocou o Botafogo na elite, assinou o laudo de posse da nossa atual casa e acabou com o jejum de títulos – e só não pôs fim ao tabu dos mais expressivos pelas injustiças do apito. É bem verdade que muitas dívidas de sua gestão não podem ser esquecidas, como a da grande maioria de jogadores em seu mandato que o Botafogo deve meses de salários na carteira de trabalho até hoje. No entanto, assim como os acertos, os erros não são de um só – ainda mais em um clube com cofres sangrando àquela altura do campeonato. Como disse meu amigo Fabiano Bandeira em sua conta pessoa no facebook, Bebeto errou muito, mas acertou muito mais.

Talvez, sem perspectiva de mais acertos e enxergando erros bem próximos, não tenha mais se envolvido com a política do clube de General Severiano. Voltou como diretor do Atlético Mineiro em 2009, e iniciava sua terceira trajetória no Galo este ano, com a chegada da nova diretoria. Até então, também era Secretário de Esportes e Lazer de Alexandre Kalil, prefeito de Belo Horizonte.

 Bebeto teve a imposição, integridade e fome de vitória vindos direto do sangue. A perseverança e genialidade do primo Heleno, a polivalência semelhante à do tio João Saldanha. E lá se vai mais um ser icônico. Vão ficando para trás, um por um, na nostalgia de passados distantes ou não. Bebeto, em todos eles, pediu passagem, e fez por onde para ser lembrado. 

Descansa em paz, presida! E me perdoe por todas as vezes que xinguei você nas arquibancadas do Caio Martins ou da TV de casa. Eu era muito pequeno pra entender que um só indivíduo, por mais que erre, não planta sozinho em terra arrasada. Ainda mais em um terreno repleto de larvas – até hoje. 

 

Abs,

Daniel Braune

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Bebeto: de lenda do voleibol no Ginásio Oscar Zelaya a comandante do ressurgimento do clube no início do milênio.

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No Comando da seleção brasileira, na década de 80.

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Bebeto comandando treino da seleção italiana de vôlei, na década de 90.

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