Os 3 maiores minutos da história do futebol: o mundo descobre Garrincha

“São os três maiores minutos da história do futebol mundial”.

 

Foi dessa maneira que o jornalista Gabriel Hannot definiu os primeiros três minutos de Garrincha como titular em uma Copa do Mundo pela seleção brasileira, em 1958, na partida decisiva da fase de grupos contra a temida União Soviética. Foi também o primeiro jogo de Pelé e Garrincha juntos como titulares em copas. Já com setenta anos de idade à época. Hannot havia visto o futebol nascer, e o acompanhara desde o berço. Mas, aparentemente, nunca havia visto algo tão fascinante.

Garrincha talvez sequer fosse à Suécia em 1958. A ausência de Garrincha esteve muito próxima da realidade.

Havia três pontas concorrendo às duas vagas no escrete: Julinho, o consagrado craque da Portuguesa e ídolo incontestável na Fiorentina; Joel, protagonista e peça-chave do Flamengo nos anos 50; e Garrincha que, apesar de já de idolatrado no Botafogo e no Rio há cinco anos, ainda não era visto como o Deus que se tornou na posição. Era, portanto, a terceira opção do técnico Feola. 

No entanto, Julinho protagonizou algo que jamais tinha sido visto e nunca mais veremos: recusou uma convocação à Copa. Se dizia em boa forma física e técnica para ajudar a seleção, e que nada o emocionava mais que representar o Brasil – mas não achava justa a sua convocação, pensando nos companheiros que lutavam por uma vaga no escrete no futebol brasileiro há anos. Sendo assim, Julinho abriu mão da convocação:

 

“A atitude de Julinho acabou produzindo um surpreendente desfecho. E apenas um jogo de hipóteses, mas vejamos. Se Julinho aceitasse a convocação, era certo que seria o titular. Joel, titular até então, provavelmente seria seu reserva.

E com isso acontecendo, Garrincha teria ficado de fora da Suécia” – escreveu Ruy Castro, na biografia de Garrincha.

Parecia que alguém lá de cima queria o Mané na Copa de qualquer jeito.

 
O técnico Vicente Feola já estudava escalar Garrincha logo na estreia, diante da Áustria. Ele havia conquistado a vaga no time titular durante os treinos às vésperas da partida. No entanto, o auxiliar Ernesto Santos havia estudado os adversários em viagens que fez à Europa no último ano, e instruiu Feola a escalar um time com três meio-campistas, um a mais que o normal, por questões táticas. Sabia que uma derrota logo na estreia jogaria um ano de trabalho intenso pelo ralo. O Brasil foi a campo com Didi, Dino Sani e Dida no meio, dando atenção aos homens da meia ofensiva austríaca, em especial o camisa 3, Ernst Happel. Assim, a magia de Garrincha teve de ser deixada para depois. O Brasil venceu, mas não convenceu. Mesmo com os três gols logo na estreia, faltava algo,
 
Contra a Inglaterra, novamente Mané seria o titular. Mas Ernesto Santos foi o responsável por adiar a apresentação de Mané ao mundo mais uma vez, dessa vez por um motivo diferente: o medo de perder Garrincha pelo restante da Copa. Afinal, o eventual marcador de Mané seria Slater, o lateral-esquerdo da seleção inglesa que, segundo Ernesto, era o jogador mais perverso que já vira atuar. Nas partidas na Inglaterra que assistira aquele ano, vira Slater quebrar um ponta por jogo. 
Com isso, a apresentação da Mané foi adiada mais uma vez.
Ao saber que não entraria, Garrincha já se incomodava. Mas não com a reserva, mas sim pela vontade de jogar bola. A quem diga que preferia jogar suas peladas em Pau Grande que permanecer em inércia na Suécia: “Não seria melhor me mandar de volta?” – perguntou Garrincha ao doutor Hilton, que prontamente o respondeu que não e o pediu paciência, dizendo que a hora estava para chegar.
Joel, titular na ponta-direita, foi instruído pela comissão técnica a não enfrentar Slater no mano a mano, para não correr o risco de se machucar. 
 
Sem efetividade ofensiva, o Brasil empatou sem gols com a Inglaterra; criava-se o cenário perfeito para a maior apresentação já vista dentro das quatro linhas. 
 
 
O Brasil enfrentaria a União Soviética na partida decisiva da fase de grupos, e precisava vencer para não depender de um tropeço da Inglaterra. E não, a União Soviética não a Rússia dos tempos de hoje, prestes a sediar uma Copa como mero figurante. Veja os relatos sobre a tradicionalíssima seleção oriental, comandada por Iashi, o melhor goleiro de todos os tempos, e precursora do chamado futebol científico, feitos pelo escritor Ruy Castro:
 
“Havia dois anos que só se falava no futebol russo. E mais ainda depois que a URSS lançou o primeiro satélite artificial – o Sputnik, em 1957 –, embora não se soubesse o que uma coisa tinha a ver com a outra. Como tudo que parecia vir da URSS, seu futebol tinha uma aura de modernidade e mistério que dava medo. Era o ‘futebol científico’, em que os jogadores estavam preparados para correr 180 minutos e, depois, sapatear balalaikas sobre os bofes dos adversários. Dizia-se que, em dia de jogo, eles faziam quatro horas de ginástica pela manhã. Dizia-se também que a KGB espalhara espiões pelo muno, filmando partidas, e que seus computadores – então chamados ‘cérebros eletrônicos’ – haviam produzido um sistema perfeito para derrotar qualquer equipe”.
Uma parte dos torcedores brasileiros presentes na Suécia se dedicava a vaiar Joel e pedir a escalação imediata de Garrincha. Didi e Nilton Santos já não se conformavam mais. O lateral-esquerdo escrevera uma carta a Sandro Moreyra, se mostrando indignado e desiludido com a seleção pela não utilização de Garrincha. Didi não conseguia ver uma seleção vencendo a Copa com apenas dois homens no ataque.
 “Escale o homem, doutor. Escale o homem” – teria exclamado Didi ao médico Paulo Machado de Carvalho, um dos comandantes máximos da seleção. As desculpas de que o auxiliar Paulo Machado de Carvalho não conhecia Mané por “ser de São Paulo” já não serviam mais. E os treinamentos? E os jogos no Botafogo? E os outros da comissão que o conheciam? Até os russos já o temiam.
 
Começava a se tornar unânime entre jogadores, comissão técnica, jornalistas e até os torcedores no Brasil: era a hora de Mané.
 
“No sábado, Garrincha perguntou a Nilton Santos:
“Estão falando que eu vou jogar. Mas só acredito se você me disser. É verdade?”
“Parece que é”, respondeu Nilton. Didi animou-o:
“É amanhã que você vai botar os russos pra jambar, Mané”.
 
Didi estava convicto. Chegara o momento.

Segue o relato de Ney Bianchi, repórter da Manchete Esportiva, que estava presente no estádio Nya Ullevi, em Gotemburgo, na Suécia:

 

Monsieur Guigue, gendarme nas horas vagas, ordena o começo da partida. Didi centra rápido para a direita: 15 segundos de jogo. Garrincha escora a bola com o peito do pé: 20 segundos. Kuznetzov parte sobre ele, Garrincha faz que vai para a esquerda, não vai, sai pela direita. Kuznetzov cai e fica sendo o primeiro João da Copa do Mundo: 25 segundos. Garrincha dá outro drible em Kuznetzov: 27 segundos. Mais outro: 30 segundos. Outro. Todo o estádio levanta-se. Kuznetzov está sentado, espantado: 32 segundos. Garrincha parte para a linha de fundo. Kuznetzov arremete outra vez, agora ajudado por Voinov e Krijveski: 34 segundos. Garrincha faz assim com a perna. Puxa a bola para cá, para lá e sai de novo pela direita. Os três russos estão esparramados na grama, Voinov com o assento empinado para o céu. O estádio estoura de riso: 38 segundos. Garrincha chuta violentamente, cruzado, sem ângulo. A bola explode no poste esquerdo da baliza de Iashin. E sai pela linha de fundo: 40 segundos. A plateia delira. Garrincha volta para o meio do campo, sempre desengonçado. Agora é aplaudido.

A torcida fica de pé outra vez. Garrincha avança com a bola. João Kuznetzov cai novamente. Didi pede a bola: 45 segundos. Chuta de curva, com a parte de dentro do pé. A bola faz a volta ao lado de Igor Netto e cai nos pés de Pelé. Pelé dá a Vavá: 48 segundos. Vavá a Didi, a Garrincha, outra vez a Pelé, Pelé chuta, a bola bate no travessão e sobe: 55 segundos. O ritmo do time é alucinante. É a cadência de Garrincha. Iashin tem a camisa empapada de suor, como se já jogasse há várias horas. A avalanche continua. Segundo após segundo, Garrincha dizima os russos. A histeria domina o estádio. E a explosão vem com o gol de Vavá, exatamente aos três minutos.”

 brasileiros comemoram o gol de Vavá, que fechava com chave de ouro os três maiores minutos da história: com Garrincha, a seleção finalmente convencia.

Todos esses relatos são encontrados no livro Estrela solitária – Um brasileiro chamado Garrincha, de Ruy Castro. O autor da biografia de Mané Garrincha também contou a respeito do restante da partida histórica:

 

E ainda faltavam 87 minutos para o jogo acabar! A continuar daquele jeito, já havia russos contemplando uma temporada na Sibéria. Nunca o orgulho do científico futebol soviético fora tão desmoralizado, e pelo mais improvável dos seres: um camponês brasileiro, mestiço, franzino, estrábico e com as pernas absurdamente tortas. A anticiência por excelência, o anti-Sputinik, o anticérebro eletrônico ou qualquer cérebro. (…) No começo do jogo, depois da saraivada inicial de dribles, os russos ainda pensaram que fosse um problema de marcação. Começaram a gritar e a discutir entre si. Mas, se acertaram a marcação, não se ficou sabendo, porque Garrincha continuou a driblá-los do mesmo jeito. Os russos apelaram para a violência, mas apenas uma vez o acertaram feio. Houve um lance em que, depois de fazer um russo cair, Garrincha pôs o pé sobre a bola e, de costas para o lance, estendeu-lhe a mão para que se levantasse. E seguiu com a jogada, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

No Rio, grudado ao rádio, com lágrimas nos olhos, o botafoguense Paulo Mendes Campos, que sempre considerara Garrincha um deus entre os mortais, via enfim que sua fé não fora um delírio: Garrincha era a prova de que a mágica podia ganhar da lógica.

O Brasil ainda faria mais um gol com Vavá, aos 13 do segundo tempo, mas parecia a maior goleada da história das Copas do Mundo. Em nenhum momento a URSS ameaçara – Gilmar fez somente uma defesa no jogo. DO outro lado, no entanto, Iashin evitou uma catástrofe numérica. O Brasil atacou 36 vezes, dezoito das quais ocm perigo e ainda disparou aquelas duas bolas na trave. Garrincha nascia ali, não apenas para o mundo, mas para o próprio Brasil. 

A partir daquele dia, deixaram de existir botafoguenses, tricolores, rubro-negros, gremistas ou corintianos puros. Todos passariam a ser Garrincha, mesmo quando ele jogasse contra seus clubes.”

* O vídeo mostra apenas pequenos relances daqueles três minutos. Fica claro, também, o desespero do goleiro Iashin ao ver o que estava por vir.

 

Ruy Castro ainda relatou que, ao chegar no vestiário, Garrincha não sabia quem o havia marcado. Afinal, não foi só um, foi quase o time russo todo. Todos terminavam com ev ou ov. Garrincha resumia a magia que havia espalhado em sua estreia em uma única frase: “Eu tava com fome de bola”.

A partir dali, o mundo conheceria Garrincha cada vez mais. Apesar das fantásticas atuações de Pelé, o rapaz de Pau Grande seria o principal condutor do título inédito em todas as partidas. Garrincha, então, retornaria após a Copa ao Brasil com a mesma simplicidade, humildade e alma de criança que sempre tivera. Mas de incógnita, retornou aos braços do povo como Rei. O verdadeiro Rei.

E tudo começou ali, naqueles três minutos, e poderia ter acabado ali. Já estava de bom tamanho. Se fossem os três últimos daquela Copa, teria sido considerada, de forma unânime, como a maior de todas as Copas. Quem sabe não foi mesmo. O mais importante se dava em três minutos – e ainda havia 87 pela frente como uma simples cereja no bolo. Aliás, ainda tinha o restante da Copa.

Tudo viraria só detalhe. Tudo culpa do Mané.

 

zagueiro soviético se espanta só de ver Garrincha se aproximar: o futebol soviético ainda não conhecia poderes místicos.

 

Daniel O. Braune

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