“Pedreira”

Há estereótipos que autodestroem brasileiros. 

 

“PEDREIRA”. “CASCUDO”. “GRUPO DA MORTE. “É GUERRA”.

Ah, o brasileiro e seus clichês de sempre em cada competição. Afinal, o que seria “pedreira”?

Quando o Botafogo foi sorteado para enfrentar Colo-Colo, depois Olímpia, para aí entrar num dito “grupo da morte”, com Atlético Nacional, Estudiantes e Barcelona-EQU, fui o primeiro a cravar: “se cair, cai na pré, por ser mata-mata. Se for pra esse grupo, passa mole”. Todos riam.

Nas redes sociais, nas ruas e resenhas dos sabichões nos programas esportivos que pouco pesquisam aquilo que acompanham, o Botafogo havia “se fodido”. 

Afinal, o que é se foder? Pegar Colo-Colo na pré-libertadores? Fui pesquisar pra ver se essa “foda” era tão sinistra assim. Vi algumas das últimas partidas daquele time, analisei os jogadores, sua forma de jogar, e… descobri que quem havia se encrencado era o próprio Colo-Colo. Ele ia enfrentar o quinto colocado no campeonato nacional mais forte de todo o continente americano.

“Ah mas enfrentar os caras lá é pedreira”. Amigo, o que te fez pensar que Colo-Colo era pedreira se você sequer sabia o nome de dois jogadores daquele time? Achou o nome bonito? A camisa? As cores do clube te deixaram com medo? O estádio é mórbido?

“Jogar lá fora é sempre perigoso” – não sabia que o jogo era único lá no Chile. Que eu saiba tinha um no Rio também. E cá entre nós, existe pedreira maior que enfrentar um brasileiro no Brasil?

Mas o brasileiro não entende isso. O Botafogo, com o time praticamente reserva, cheio de desfalques por ocasiões diversas. Fizemos o que equipes como a Ponte Preta ou o Coritiba, se enfrentassem o Colo-Colo, fariam: passariam. Digo e assino embaixo. Esse projeto de time chileno cairia para a série B com algumas rodadas de antecedência se disputasse o campeonato brasileiro. 

 

Depois veio o Olímpia, outra “pedreira”. Esse até que fazia um pouco de sentido. Diferentemente do Colo-Colo, que nem time de profissional parecia, o Olímpia tinha organização. Desfalcados, o alvinegro passou de novo. 

No “grupo da morte”, a morte era só o Botafogo mesmo. No máximo o Barcelona, que sequer era lembrado pelos “especialistas”esportivos quando mencionavam o tal grupo. Atlético Nacional e Estudiantes eram as “pedreiras” da vez. Já sabem o que aconteceu.

O Botafogo derrtou o Estudiantes na primeira partida e venceu o Atlético Nacional na Colômbia e aqui. O único que deu trabalho ao clube brasileiro foi o organizadíssimo Barcelona, que veio ao Rio e colocou o alvinegro na roda. No entanto, no fim, o Botafogo terminou líder no “grupo da morte”, que talvez tenha feito jus ao apelido mesmo. As duas mortes faleceram com uma rodada de antecedência. 

“O Botafogo surpreendeu”. “O que está acontecendo com o Botafogo? Um time tão fraco indo tão longe?” – fraco pra quem não entende nada. Quem entende, sabe que quem manda na América Latina com a bola nos pés é o Brasil e, que se a organização e o psicológico estiverem em alta, ninguém para os pentacampeões – coisa que o Botafogo e todos os outros entenderam – inclusive a limitadíssima Chapecoense, que só não avançou por questões extracampo;

coisa que o Flamengo não entendeu.

Quando vi o Fla no grupo dos limitados San Lorenzo e Atlético Paranaense e do time horroroso da Universidad Católica, cravei o Fla como primeirísimo do grupo vencendo quase tudo. Me chamaram de louco, disseram que “a morte” também estava nesse grupo, e adivinha? “Era pedreira”. Já não aguento mais isso.

Dessa vez eles acertaram pelo negativismo, mas não o motivo. Não mesmo. O Flamengo não foi eliminado por SL, CAP, ou Católica, mas sim pelo próprio Flamengo. O Flamnego não foi eliminado pela morte, mas sim sequer apresentou vida. Tinha time,elenco, muita, muita grana, mas, dentro de si, pouco entusiasmo, concentração e estragtégia. Com boas peças na parte técnica, o Flamengo não era o dos mais organizados e não produziu o que poderia. Caiu para ele mesmo. 

Se o Botafogo entrasse no gurpo que o Flamengo entrou, passava fácil. Aliás, se o próprio Flamengo tivesse entrado – de verdade – passava. Tanto que o Atlético passou.

 

O brasileiro tem que se livrar urgentemente dos estereótipos que ele mesmo inventa. Tem de se livrar um pouco da dramaticidade e do romantismo que agrega a situações em que não há necessidade para tanto. Não é “guerra”, não é “sangue”, não é “pegada”, é só jgoar bola, é só fazer o que o brasileiro sabe fazer. Parem com clichês nojentos.

Já viram o Barcelona tremer pro Celtic ou pro Steua Bucareste porque “jogar lá é pedreira”? Não. Eles fazem o que um time de futebol tem que fazer: jogam bola.

Não é “pedreira”, é apenas uma pedrinha no meio do caminho. Não é barreira, tem uma escada logo ali do lado. É só chegar nela e subir. 

Clubes, jornalistas e torcedores do futebol brasileiro parecem aquele Labrador que você vê na rua se cagando de medo quando um Pinshcer de 30 cm passa do seu lado. O brasileiro não tem noção do seu tamanho, da sua capacidade e do quão temido ele é lá fora.

Na maior competição da América, só sobrevive quem sabe da sua própria grandeza, trabalha suas limitações e não teme a quem sabe que é menor do que você. Por isso, 7* dos 8 brasileiros avançaram à fase final. O único que caiu não seguiu seguiu estes passos.

Abs,

Daniel Braune

* a Chapecoense também foi eliminada na fase de grupos, mas passaria se não fosse uma decisão extracampo da CONMEBOL.

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