Presos em quem não somos

É cada vez mais comum o ser humano se sentir preso. Tudo tem um limite. 

A gente vive em um constante carnaval. Não aquele em que esquecemos tudo por uma semana para sorrir; o contrário. Sim, é carnaval dos mascarados também. Mas os que lembram de cada detalhe dos dias rotineiros para rir. Só rir.

Rir do outro, rir do suposto inferior, do que chegou depois e não sabe o que fazer. Anote a receita: aquele riso com uma pitada de deboche, maldade, deslealdade, de uma superioridade inexistente.

O sorriso? É planejado, político. Vem no cumprimento, no parabéns, no compadrismo. É disfarçado, os dentes são branquinhos, longe do amarelo nítido, que faz parte do plano. É só uma dentadura. Você sabe que é falso – mas não pode dizer que sabe. Está enjaulado na “boa” relação que tem de manter.

É o período da prisão social. Não seja você mesmo, vão te condenar. 
Esqueça tentar ser simpático. Vai ser o alvo do grupinho do WhatsApp da panela. Vai chover foto sua te colocando defeito. É estranho ser assim hoje. 

Sorrir? Esconde os dentes! Vão tentar olhar profundo pra ver se tem um resto de comida. Não tem dado nem pra passar perfume… se não passa, tá fedendo. Se passa, botou pra disfarçar porque não tomou banho.

Não emita opiniões. Fica na tua. Quem pensa que é pra falar alguma coisa? É democracia, ok, mas tem que ter credencial na área vip pra abrir a boca. 
E nem me fale na palavra amaldiçoada: amar. Esse é o maior crime de todos. Ao infrator, a prisão é perpétua. Afinal, provavelmente, só ele vai amar. É sinônimo do ridículo, do ingênuo, do bobo. Palavras que, em outros tempos, caracterizariam as mais positivas e puras consequências do amor. Será condenado até pelos que mais reclamam da falta dele nas redes sociais.

Os tempos são outros. Você não pode sorrir, não pode falar, não pode achar, não pode encontrar, não pode se encontrar. Não posso acertar e nem errar. Os erros serão condenáveis, pauta principal nas resenhas da galera que escreveu essa constituição. Nos acertos, o ato adicional logo é criado pra te tirar da jogada. 

Seguimos em frente, sem saber que não estamos indo em frente, adiante. Andamos em círculos dentro de uma cela, sempre pensando. Pensando em como seria se fosse mais fácil dar bom dia a quem quisesse, dar um oi a quem se gostaria, dizer “eu te amo” a quem se quer conquistar. Seguimos só pensando. Num mundo de sonhos viciantes em nossa cabeça, que só nos angustiam. A realidade está tão próxima, mas o máximo que podemos fazer é esticar as mãos.

Que tentemos ser nós mesmos em lampejos de oportunidades. Quem sabe um dia não achamos a chave dessa jaula que nos trancafia longe do mundo ensolarado? 

Por enquanto, vivemos o nosso carnaval eterno. Do avesso, da mentira, da escuridão, da politicagem de Brasília que tanto reclamamos, mas fazemos igual em nosso cotidiano em nossas relações. Somos falsos, sonsos, vigaristas, golpistas o tempo todo, em cada passo dado.

Vida que segue. Transmissão ao vivo no Instagram! Ajeita o cabelo, alinha a postura. Disciplina! Oficiais estão de olho.

Daniel Braune

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