Salah, o mundo te aguarda

MO futebol atual já me enjoava a ponto de não querer mais escrever sobre ele num geral. A mesmice tomava conta em todos os aspectos. Não via perspectiva de novidade num futebol robotizado, visto das telinhas do mundo inteiro graças às câmeras apontadas para a Europa. Messi ou CR7, meu Real ou meu Barça; luxo, likes, discussões tolas, “ousadia e alegria” virando virando febre, mas na vida real só se via omissão com o que ocorre no mundo.

No entanto, certas mesmices parecem vir para que nos apaixonemos pelas novidades mais inesperadas possíveis. Surge algo novo no mundo do futebol. Por quanto tempo, ninguém pode saber. Mas há um homem que tem tudo pra recolocar o futebol nos trilhos que ele se encaixa.

Em tão pouco tempo, o mundo viu um ser se agigantar no cenário mais improvável possível. Cada um de nós tem arregalado cada vez mais os olhos ao notarmos o que saiu, há pouco, de dentro das catacumbas do Egito.

Mohammed Salah se agiganta para o mundo como uma lenda, o único faraó que vimos com nossos próprios olhos. Aliás, o que vimos em Anfield contra os romanos foi o próprio Maomé. De corpo, de alma. De impulso, de comportamento.

Mas não faz com que o mundo fique pequeno. Seu gigantismo está na sua própria simplicidade de compreender que o mundo é enorme para nos acharmos alguém diante dele. Ou mesmo no curto espaço que ocupa no campo. Ele só precisa daquela pontinha da área pra dominar o mundo.

Salah talvez tenha vivido um de seus maiores momentos na vida contra a Roma. O maquinista do Liverpool conseguira conduzir, sob trilhos soltos e imprecisos, um dos mais pesados e tradicionais trens ao apogeu do velho continente, depois de tanto intacto. E conteve a emoção. Não se via no direito de comemorar a devastação dos romanos, a quem ele tanto ajudou nessa mesma caminhada. É o respeito por quem o puxou da tumba e o revelou. É a simplicidade e o coração de um ser diferenciado dentro e fora de campo.

Seu reinado tem a soberania de um líder a salvar o seu povo – mas é democrático, já que todos usufruem daquilo que faz. O povo egípcio desfruta do homem que os alçou ai mundo do futebol novamente, subindo degrau por degrau a pirâmide. E não havia nem tanta intimidade para tal feito.

Reis podem ser Reis, o “pai” pode ser o pai, mas parece que faraós são diferenciados. Mesmo. Salah não dá ordens, apenas cumpre promessas. Seu povo vai à Copa. Seu vilarejo tem contas pagas, medicamentos, mais estrutura e auxílio, tudo por ele. Até o homem que assaltara sua família foi ajudado depois do dia mais feliz de sua vida, na classificação aos cinquenta minutos.

Salah faz, auxilia, educa – e não quer nada por isso. Solicita que a mansão oferecida por um empresário egípcio após a classificação ao mundial vire doação ao seu vilarejo.

Que a magia e a mística incompreensível e veloz não termine com a mesma rapidez – e já não há mais como. Há quem jogue muita bola e caia no esquecimento com o tempo. Faraós se eternizam nos mais simples atos. Parecem parar o tempo. O ponteiro realmente não se desloca quando ele amacia a bola na diagonal. Nem nunca vai parar enquanto seus gols virarem esperança para o seu povo na África. O restante do planeta já parece invejar.

Das pirâmides de Nagrig ao Império Romano, de Roma à coroa inglesa; daí para o mundo que ele talvez domine, por covardia nos gramados e simplicidade fora dele. Se vai conseguir um dia, não sabemos. Mas é o que queremos. E é o que sentimos também. Depois de tantos anos de “mais do mesmo”, que o romantismo se aposse do futebol, mesmo que em tom de exagero. A bola de ouro precisa de algo muito maior que recordes e números. Ela simboliza o mundo. E tem de tê-la quem a trate bem.

O topo do mundo já escuta seu povo a te ovacionar. Os Deuses do futebol ouvem os ruídos, e parecem gostar. Salah, o mundo já te notou. E te quer para cuidar dele.

 

Daniel Braune

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