Só chutar uma bola?

 

"Um milhão de reais pra um babaca chutar uma bola? E os professores, médicos, bombeiros?"

Certamente você já ouviu da boca de alguém a citação acima, ou ao menos já se perguntou o porquê dos valores tão astronômicos que são pagos aos jogadores de futebol no planeta. Mas você ja se perguntou de onde vem esse dinheiro? Já parou pra pensar por que tanta grana? 

 Ouro português: Gajo recebe, ao todo, R$ 1 milhão por semana.

 

Pra início de conversa, nem todos os atletas ganham "um milhão pra chutar ~uma~ bola". É preciso elucidar alguns números.

De acordo com dados IG Esportes, mais de 80% dos futebolistas no Brasil ganham menos de mil reais por mês, e 13% recebem apenas na casa de 1 a 5 mil reais. Ou seja,em um país de 28 mil jogadores com contratos profissionais, apenas 7% tem salário acima de 5 mil reais – mais de 23 mil recebem, no máximo, mil reais mensais.

"Mas e os jogadores milionários dos grandes clubes?"

Há uma explicação para isso: chama-se giro de capital. E quanto maior for esse círculo giratório, mais dinheiro cabe nele.

O Campeonato Brasileiro do ano passado teve média de público 16.895 pessoas – o que ainda é considerado pouco em comparação aos últimos anos; enquanto isso, a média de Superliga masculina de vôlei  – considerada a liga mais forte do paneta – foi de apenas 1.219 pessoas; a do NBB, liga de basquete nacional, os números ficaram abaixo da casa dos mil.

Isto é, mesmo desvalorizado, o campeonato nacional de futebol é prioridade máxima no entretenimento do povo brasileiro, seja dentro ou fora de casa.

Afinal, o gigantesco interesse da população mundial também se reflete nos televisores de todo o planeta. Na Copa do Mundo de 2014, mais de um bilhão assistiam à final do torneio na TV. Só no Brasil, o índice de audiência em todo o torneio foi de 3,2 bilhões de pessoas.

 

Post salgado: Um único tweet publicitário de Neymar vale R$ 421 mil.

 

E o que isso causa?

Quanto mais pessoas se interessam em assistir algo, mais megaempresários também se interessam em ver as logomarcas de suas empresas na mesma tela a qual se encontram os superastros do mundo da bola. No mundial no Brasil, o patrocínio de 19 empresas ao evento levantou mais de R$ 1,6 bilhões – isso sem contar todas as outras empresas que patrocinaram cada seleção e jogadores individualmente. A CBF fatura mais de 120 milhões de reais com cinco patrocinadoras oficiais.

Mas sabe por que pagam tudo isso? Porque sabe que o retorno vai ser ainda maior, tudo graças à divulgação de suas marcas nos veículos de imprensa, comandados pelo amplo mercado do jornalismo esportivo. Na última Copa do Mundo, mais de 20 mil profissionais de imprensa estiveram no Brasil para cobrir aos jogos, além de toda a equipe especializada na parte técnica de filmagens.

E não para por aí. O mercado é amplo como um enorme latifúndio. Engenheiros constroem estádios, profissionais da medicina cuidam dos atletas, vendedores e profissionais de limpeza são empregados, indústrias têxteis e de calçados investem milhões à parte no mercado do futebol. Até mesmo o mercado dos treinadores de futebol cresceu. Núcleos de análise de desempenho e estatísticas vêm sendo implantados pelos diversos clubes no mundo, e o número de profissionais de comissões técnicas só cresce.

 

Tudo isso graças ao torcedor, que sustenta o futebol tanto ao acompanhá-lo nos canais esportivos quanto indo aos estádios e rendendo dinheiro aos clubes com a venda de ingressos.

 

E quem está no centro de toda essa montanha de dinheiro? Você acertou: o homem que recebe "um milhão" para chutar "apenas" uma bola. E é graças ele que o torcedor acompanha, o patrocinador banca, o engenheiro constrói, o jornalista cobre… e todo o mercado roda em um ciclo, giratório como a bola que rola sobre a grama.

E se o jogador de futebol não existisse? Talvez eu não estivesse aqui escrevendo – e minha vida seria muito mais chata.

Se, por apresentar esses argumentos, não concordo que professores, médicos, e profissionais da segurança pública são muito desvalorizados? Em nada uma coisa se liga a outra. Afinal, essas três profissões acima, com a existência desse mercado vasto chamado futebol, também ganham valor.

Valoriza-se mais o profissional da educação física, aumenta-se cultura esportiva nas escolas, cresce o número de vagas e o mercado de ortopedistas e fisioterapeutas, mais vagas para policiais surgem para garantir a segurança nos estádios.

Há de se concordar que, de qualquer forma, profissionais do desenvolvimento básico de um país deveriam ser mais valorizados? Com certeza. Mas não contraponha as coisas. Coloque-as em paralelo.

Se essa bola parar de rolar – em especial no Brasil – a economia para também. Esse verdadeiro furacão que junta toneladas de dinheiro poderia, também, ser investido na valorização dessas profissões. Afinal, a Caixa Econômica Federal obteve um lucro de R$ 4 bilhões no ano passado, uma quantia que se deve muito por conta do futebol, o qual o banco investe R$ 135 milhões em patrocínios a clubes brasileiros atualmente. Se isso não acontece, você deveria reclamar com um engravatado, não xingar uma bola de futebol – objeto que salva milhares de crianças da vida do crime a cada projeto social criado no Brasil e no mundo.

Portanto, se esse gordo salário não cai na conta de míseros 5% do total de futebolistas no país, eu me prejudico, você se prejudica – e os seus próprios princípios também.

Daniel O. Braune e José Passini ​

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